Indústria mineira tem pior expectativa de demanda para outubro em 11 anos

Pesquisa da Fiemg aponta expectativa de queda na demanda, nas compras de matérias-primas e no emprego industrial nos próximos seis meses.
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Indústria mineira tem pior expectativa de demanda para outubro em 11 anos
Foto: Claraboia Filmes/ CNI

A indústria de Minas Gerais tem a pior expectativa de demanda para outubro em 11 anos, segundo a Sondagem Industrial de Minas Gerais, divulgada pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). O indicador caiu para 47,6 pontos em outubro deste ano, ante 48,5 pontos no mês passado. Já em setembro de 2025, o indicador ficou em 52,1. Em geral, o estudo considera resultados abaixo de 50 pontos como perspectiva de queda da demanda nos próximos seis meses.

O pessimismo também aparece nas projeções para a compra de matérias-primas e o emprego industrial. Os dois indicadores registraram os piores resultados para outubro em 11 anos (matérias-primas) e nove anos (emprego industrial). Conforme a análise da entidade, os aspectos sinalizam que os empresários mineiros esperam reduzir as compras de insumos e o número de trabalhadores nos próximos meses.

O cenário já afeta as decisões de investimento das empresas e aumenta a cautela em relação ao fim de 2026 e ao início de 2027. Embora a intenção de investir tenha avançado em relação a setembro, o indicador registrou o menor resultado para outubro em oito anos, segundo a pesquisa da Fiemg.

Para a coordenadora de Economia e Finanças Empresariais da entidade, Daniela Muniz, a combinação de crédito caro, endividamento elevado e incertezas econômicas dificulta o planejamento da indústria e pode adiar investimentos. “Esse ambiente de moderação da atividade econômica, de crédito caro, de endividamento, tudo isso acaba dificultando as decisões das empresas”, avalia.

Demanda e produção industrial perdem força

Os dados levantados pela Fiemg também mostram uma retração da atividade industrial. Em setembro, o índice de evolução da produção ficou em 46,8 pontos, abaixo da linha dos 50 pontos pelo segundo mês consecutivo. Apesar da alta de 3,5 pontos em relação a agosto, o indicador recuou 3,3 pontos na comparação com setembro de 2025.

Outro aspecto que também registrou retração foi o emprego industrial. O índice de evolução do número de empregados atingiu 48,2 pontos em setembro, embora tenha avançado 1,6 ponto na comparação mensal. O resultado ficou próximo do registrado um ano antes, de 48,1 pontos.

Em geral, a maioria das informações do levantamento reforçam que o mercado industrial está cauteloso. O índice de expectativa de compra de matérias-primas recuou para 47,3 pontos em outubro deste ano, ante 47,7 pontos no mês passado. Já em outubro de 2025, ficou em 50,7. Já a expectativa para o número de empregados caiu de 47,8 para 47 pontos no intervalo de um mês.

Os indicadores apontam para uma possível redução simultânea da demanda, das compras de insumos e do emprego industrial. Na avaliação de Daniela Muniz, as projeções refletem a perda de dinamismo da economia e as dificuldades enfrentadas pelas empresas para financiar suas operações.

Crédito caro e custos pressionam as empresas

Um dos grandes fatores que ajudam a explicar a deterioração das expectativas são as condições financeiras das indústrias mineiras. No terceiro trimestre de 2026, o índice de satisfação com o lucro operacional caiu para 39,8 pontos, ante 41,4 pontos no trimestre anterior. Com isso, a insatisfação dos industriais com as margens de lucro chegou ao 16º trimestre consecutivo.

A percepção sobre a situação financeira das empresas também piorou. O indicador recuou para 45,5 pontos, de 46,7 pontos no segundo trimestre, permanecendo abaixo da linha de 50 pontos pelo sétimo trimestre consecutivo.

Em relação ao acesso ao crédito, o índice de satisfação marcou 40,1 pontos. Apesar da pequena melhora frente aos 39,9 pontos do trimestre anterior, o resultado indica que os empresários continuam encontrando dificuldades para financiar suas atividades.

“Os juros elevados acabam tendo um encadeamento grande na economia, porque encarecem o financiamento, aumentam o custo de capital de giro e podem adiar investimentos”, explica Daniela.

Principais desafios enfrentados pela indústria

Além do custo do crédito, a demanda interna insuficiente e a carga tributária aparecem entre os principais obstáculos para a indústria mineira. No terceiro trimestre, a elevada carga tributária voltou à primeira posição do ranking, citada por 33,6% dos empresários, ante 30,8% no trimestre anterior.

A demanda interna insuficiente ficou em segundo lugar, com 29,9% das citações, seguida pela falta ou pelo alto custo de trabalhadores qualificados, com 26,1%. As taxas de juros elevadas subiram da quinta para a quarta posição, mencionadas por 25,4% dos industriais.

Para a coordenadora da Fiemg, a combinação desses fatores limita a capacidade de reação das empresas em um momento de desaceleração econômica.

Investimentos avançam no mês, mas ficam no menor nível em oito anos

A intenção de investimento da indústria mineira atingiu 54,2 pontos em outubro, alta de 2,8 pontos em relação a setembro, quando marcou 51,4 pontos. Apesar do avanço mensal, o indicador recuou 1,4 ponto na comparação com outubro de 2025, quando estava em 55,6 pontos, e registrou o menor resultado para o mês em oito anos.

O resultado sugere que, embora a disposição para investir tenha apresentado uma recuperação pontual, as empresas seguem mais cautelosas do que em anos anteriores. O índice permaneceu acima de 50 pontos, patamar que indica maior propensão a investir, mas ficou próximo da média histórica de 53 pontos.

Segundo Daniela Muniz, a incerteza sobre o comportamento da economia nos próximos meses interfere no planejamento dos negócios. A coordenadora ressalta, porém, que as empresas não podem interromper todos os investimentos, uma vez que precisam atualizar equipamentos e manter suas operações.

“Mesmo com a intenção de investimento tendo subido um pouquinho em relação ao mês anterior, quando a gente compara com os meses de outubro dos anos anteriores, foi o menor resultado para o mês em oito anos”, observa.

A pesquisa da Fiemg foi realizada entre 1º e 13 de outubro de 2026, com 136 empresas industriais de Minas Gerais, sendo 47 de pequeno porte, 42 médias e 47 grandes.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.