Economia

Cresce o interesse da Índia por lítio e terras-raras de Minas Gerais

Empresas do país asiático intensificam busca de parcerias em projetos estratégicos voltados para transição energética no Estado
Cresce o interesse da Índia por lítio e terras-raras de Minas Gerais
Projetos de lítio e terras-raras no Estado já atraíram o interesse de empresas indianas | Foto: Reprodução Site Sigma Lithium

Em busca de reduzir a dependência da China, assim como outras nações, incluindo o Brasil, a Índia tem demonstrado cada vez mais interesse nos minerais críticos e estratégicos de Minas Gerais. Os indianos estão interessados, principalmente, em lítio e terras-raras.

Um exemplo disso ocorreu neste mês. A Altmin comprou 33% da CBL Refinaria e fechou acordo de offtake para receber, por 15 anos, o carbonato de lítio grau bateria produzido em Divisa Alegre. A empresa indiana era cliente da Companhia Brasileira de Lítio (CBL) desde 2019, quando o grupo mineiro já enxergava potencial no país asiático.

Para o diretor de Atração de Investimentos da Agência de Promoção de Investimentos do Estado de Minas Gerais (Invest Minas), Ronaldo Barquette, a nova parceria entre as empresas traz visibilidade para Minas e abre espaço para a chegada de outros players da Índia. Ele afirma que há discussões com indianos sobre lítio e terras-raras e que uma missão ao país deve ser realizada nos próximos meses, diante de um momento oportuno.

“Trabalhamos fortemente para divulgar Minas Gerais fora do Brasil. Assim, temos grandes empresas canadenses, americanas e australianas no Estado e, agora, começamos a despertar mais interesse de empresas indianas”, afirma.

A estratégia indiana

Segundo o CEO da CBL, Vinicius Alvarenga, a Altmin é uma das empresas indianas que está se estabelecendo na cadeia do lítio, aproveitando uma política de Estado da Índia. O país tem um programa que visa garantir o fornecimento e fortalecer as cadeias de valor dos minerais críticos e estratégicos. O executivo destaca que o governo indiano investe “pesadamente” na transição energética, como a China fez há aproximadamente uma década.

Conforme informações públicas que acompanha, o diretor da St George Mining no Brasil, Thiago Amaral, reitera que a Índia está investindo bastante na própria indústria de base e começa a assumir um posicionamento semelhante ao que os chineses ocupam atualmente no mundo. Com isso e por manter uma postura neutra nas disputas globais, ele avalia que o país se torna um parceiro interessante para o mercado brasileiro firmar acordos estratégicos.

Relação do país com alguns projetos em desenvolvimento

A St George é uma das mineradoras com projeto de terras-raras em Minas Gerais. Aberta a conversas, a empresa, até o momento, não teve nenhum tipo de contato oficial com o governo ou o setor privado indiano sobre o empreendimento que está sendo desenvolvido em Araxá e também produzirá nióbio.

Por outro lado, embora tenha sido apenas um diálogo inicial, a Viridis Mining and Minerals apresentou, neste mês, o projeto que desenvolve em Poços de Caldas para uma empresa indiana, sem nome revelado, que busca carbonato de terras-raras para processar no país. A informação é do gerente da mineradora no Brasil, Klaus Petersen. Ele ressalta que foi a primeira vez que a empresa foi procurada por um player da Índia.

“Existe uma sinergia com a Índia, que compra da China o minério que vamos produzir e tem enfrentado dificuldades. O fato de estarem procurando diversificar os fornecedores de matéria-prima para o processamento é interessante”, salienta.

Já a Meteoric Resources, que tem um projeto de terras-raras em desenvolvimento em Caldas, não negociou com indianos até agora a respeito do empreendimento, segundo o diretor-executivo da empresa, Marcelo de Carvalho. Conforme ele, a mineradora chegou a receber um convite da Câmara de Comércio Índia-Brasil (CCIB) para participar de uma missão na Índia, no entanto, optou por não comparecer.

Marisa Cesar
Presidente do conselho da AMC, Marisa Cesar | Foto: Divulgação Arquivo Pessoal

Acordo com o Brasil pode intensificar ainda mais o interesse dos indianos pelos minerais do Estado

No sábado (21), Brasil e Índia assinaram um memorando de entendimento (MoU) sobre cooperação em minerais críticos e terras-raras. O instrumento foi assinado durante visita do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao país asiático.

Para a presidente do conselho da Associação de Minerais Críticos (AMC), Marisa Cesar, não será uma surpresa caso o acordo celebrado entre os países intensifique o interesse da Índia pelo lítio e pelas terras-raras do Brasil, especialmente, em Minas Gerais. Ela destaca que o Estado reúne alguns dos ativos mais relevantes e competitivos globalmente.

“À medida que o país avança na diversificação de suas cadeias de suprimento, o Brasil se consolida como um parceiro estratégico e confiável. Esse movimento também tende a abrir espaço para novas negociações no setor privado, incluindo investimentos, parcerias industriais e acordos ao longo da cadeia de valor”, salienta.

“É uma oportunidade para atrair capital qualificado e fortalecer o posicionamento do Brasil na nova geopolítica dos minerais críticos”, complementa.

Em linha com o que Marisa Cesar diz, uma fonte do segmento de terras-raras afirma que, certamente, o MoU abre um canal para o setor privado iniciar relações que não existiam antes. Outra pessoa ligada à área pensa de forma diferente e diz que isso ainda é incerto.

MoU traz alívio para parte do setor privado

Uma das fontes afirma estar “aliviada” pelo fato de Lula não ter aderido aos radicais para controlar o direcionamento das exportações dos produtos das minas à Índia. Havia uma preocupação em parte do mercado sobre a possibilidade de o governo brasileiro firmar um acordo nesses moldes, o que afetaria offtakes e estruturas de financiamento, além de fazer investidores “fugirem” dos projetos em desenvolvimento no Brasil e em Minas Gerais.

“O MoU com a Índia acabou sendo mais um documento amigável, que não traz obrigações e mostra que a posição do Brasil é estar pronto para negociar com qualquer um”, ressalta.

“Vejo o Lula preparando o terreno para encontrar o [Donald] Trump [presidente dos Estados Unidos] em março”, pontua, se referindo ao provável encontro em Washington, quando um acordo sobre minerais críticos e estratégicos poderá ser discutido.

As bases do instrumento

Marisa Cesar explica que a base do acordo que Brasil e Índia firmaram é estabelecer uma estrutura de cooperação técnica, científica e industrial entre os países. Isso inclui troca de conhecimento em exploração mineral, processamento, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento das cadeias de suprimento, promover parceria entre instituições, incentivar pesquisa e avaliar oportunidades futuras de colaboração.

Conforme a presidente da AMC, o acordo é um sinal claro de que o Brasil passa a ocupar um papel cada vez mais estratégico na cadeia global dos minerais críticos e das terras-raras. Segundo ela, mais do que garantir acesso aos recursos minerais, a Índia, assim como outros países, busca estabelecer parcerias de longo prazo com jurisdições confiáveis, capazes de oferecer escala, estabilidade e sustentabilidade.

“Esse movimento reforça o posicionamento do Brasil não apenas como fornecedor de matérias-primas, mas como um potencial hub de agregação de valor, com condições competitivas para avançar também em etapas como beneficiamento e refino. O País reúne uma combinação única de base geológica relevante, matriz energética limpa e capacidade de desenvolver projetos alinhados aos mais altos padrões internacionais”, destaca.

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