Entidades empresariais criticam aprovação do fim da escala 6×1 e preveem aumento de custos

Fiemg e ACMinas criticam aprovação da proposta e defendem avaliação dos impactos sobre competitividade, empregos e preços ao consumidor
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Entidades empresariais criticam aprovação do fim da escala 6×1 e preveem aumento de custos
Parlamentares comemoram resultado da votação sobre o fim da escala 6x1 | Foto: Ton Molina/Agência Senado

A aprovação da proposta de redução da jornada de trabalho, na noite de quarta-feira (14), provocou reações de entidades empresariais nesta quinta-feira (15). Representantes de diferentes setores produtivos manifestaram preocupação com os possíveis impactos da medida sobre custos, empregos e preços ao consumidor.

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) classificou a aprovação como “uma tragédia socioeconômica anunciada”. O presidente-executivo da entidade, Paulo Solmucci, afirma que a associação já vinha alertando para os possíveis efeitos da medida. “Ela terá impactos extraordinários na sociedade. Os primeiros serão percebidos tão logo ela comece a vigorar, por conta dos serviços essenciais”, afirmou.

Segundo Solmucci, cerca de 15 milhões de pessoas trabalham na escala 6×1 em diferentes setores da economia e passariam a trabalhar um dia a menos por semana com a mudança. Na avaliação dele, seriam necessários aproximadamente 3 milhões de trabalhadores adicionais para manter a atual oferta de serviços.

“Onde encontrar essa mão de obra? Certamente ela não está sobrando. Vai ser um rouba-monte”, disse. No setor de alimentação fora do lar, ele prevê que muitos estabelecimentos poderão fechar um dia adicional por semana, devido ao aumento dos custos ou à dificuldade de contratar funcionários.

Solmucci também avaliou que, em um segundo momento, a redução da jornada poderá pressionar os preços ao consumidor. “Depois da precarização dos serviços, em seguida veremos aumento de custo, inflação grande e perda de poder aquisitivo da população, o que afeta inclusive o setor de bares e restaurantes, porque menos dinheiro no bolso significa menos consumo”, explicou.

Construção civil teme alta de 5,5% nos preços dos imóveis

Na construção civil, a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) também manifestou preocupação. A entidade reconheceu a importância de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, mas ressaltou que uma mudança dessa dimensão exige a avaliação dos possíveis efeitos sobre o emprego, os investimentos e o poder de compra das famílias.

Segundo a associação, a redução da jornada poderá elevar em 5,5% o preço dos imóveis, além de afetar o planejamento de empreendimentos com longos ciclos de produção, incluindo obras em andamento e unidades já vendidas.

Shopping centers alertam para risco de perda de 130 mil empregos

No comércio varejista, a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) ressaltou que os centros de compras funcionam diariamente, em horários estendidos, inclusive aos fins de semana e feriados. Segundo a entidade, a reorganização das equipes e escalas poderá representar um desafio, sobretudo para os pequenos negócios. “As operações com até seis funcionários representam cerca de 60% dos lojistas. A mudança também afeta cerca de 16 mil quiosques, que possuem estrutura enxuta e menor capacidade de absorver custos adicionais”, destacou em nota.

A Abrasce defendeu que uma eventual redução da jornada seja implementada de forma planejada, com segurança jurídica e respeito às particularidades de cada setor. Um estudo realizado em parceria com a Tendências Consultoria apontou risco de perda de cerca de 130 mil empregos formais no segmento. Diante dessa projeção, a associação reforçou a necessidade de uma transição adequada à realidade das operações.

ACMinas considera aprovação precipitada

O presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), Cledorvino Belini, considerou “precipitada” a aprovação da proposta em período eleitoral. Segundo ele, não houve tempo suficiente para uma análise aprofundada e conjunta dos riscos e das oportunidades da medida para a economia brasileira.

“Uma mudança dessa dimensão exige um debate amplo, fundamentado em dados e que considere a realidade dos diferentes setores produtivos. A preocupação é que o aumento dos custos operacionais seja repassado aos preços, pressionando a inflação, e que determinados serviços se tornem inviáveis ou deixem de ser oferecidos à população”, afirmou.

Para Belini, o principal desafio é avançar nas relações de trabalho sem comprometer a competitividade das empresas, a oferta de serviços e a geração de empregos. “O Brasil precisa discutir modelos que conciliem os interesses dos trabalhadores com a sustentabilidade dos negócios, especialmente das micro e pequenas empresas”, concluiu.

Já a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio MG) disse que está com a posição da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) que lamentou que a decisão tenha sido conduzida em período eleitoral.

A entidade reafirmou que mudanças dessa magnitude exigem aprofundamento técnico, diálogo e avaliação criteriosa de seus impactos sobre o emprego, a competitividade e a sustentabilidade das empresas, especialmente nos setores de comércio, serviços e turismo.

Também defendeu que as relações de trabalho devem ser discutidas prioritariamente por meio da negociação coletiva entre representantes de trabalhadores e empregadores. “Esse é o caminho mais adequado para construir soluções equilibradas, que respeitem as particularidades de cada atividade econômica e as diferentes realidades regionais, assegurando previsibilidade, segurança jurídica e preservação dos postos de trabalho”.

A Associação Mineira de Supermercados (Amis) não se manifestou sobre a aprovação da proposta.

Fiemg defende negociação coletiva e alerta para aumento de custos

Na indústria, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) defendeu a negociação coletiva e alerta para os riscos da redução da jornada. Contrária à proposta desde o início da tramitação, a entidade avalia que a medida poderá provocar consequências significativas para a economia brasileira, especialmente em relação aos custos do trabalho, à competitividade das empresas e à manutenção dos empregos formais.

O presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, criticou o que considera o caráter eleitoreiro da proposta e alertou que os possíveis efeitos não ficariam restritos ao setor produtivo. “Sem aumento de produtividade, reduzir a jornada mantendo integralmente os salários significa aumentar o custo da hora trabalhada. Isso pressiona as empresas, reduz a competitividade e acaba chegando ao cidadão por meio de produtos e serviços mais caros. Não podemos tomar uma decisão dessa magnitude ignorando seus efeitos sobre emprego, renda e crescimento do País”, afirmou.

A Fiemg também demonstra preocupação com os possíveis impactos da mudança sobre acordos e convenções coletivas já negociados entre empresas e trabalhadores. Para a entidade, a negociação coletiva deve continuar sendo o principal instrumento para definir jornadas e escalas, permitindo soluções adequadas às particularidades de cada atividade produtiva.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.


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