Perdão de dívidas pode ajudar MEIs, mas crédito caro preocupa especialistas

Medida que pode beneficiar 3,6 milhões de empreendedores é vista como oportunidade de retomada dos negócios, mas levanta dúvidas sobre crédito e incentivo à inadimplência
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Perdão de dívidas pode ajudar MEIs, mas crédito caro preocupa especialistas
Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil

Anunciado nesta terça-feira (13) pelo governo federal, o pacote de cinco medidas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs), entre elas o perdão de R$ 12,6 bilhões de dívidas acumuladas por cerca de 3,6 milhões de microempreendedores, repercutiu positivamente entre instituições e entidades representativas da economia.

Para o presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Décio Lima, o pacote representa um grande programa para o empreendedorismo brasileiro que, segundo ele, reúne mais de 17 milhões de microempreendedores individuais.

“O perdão das dívidas anunciado pelo presidente Lula é uma medida fundamental para devolver o fôlego aos microempreendedores que precisam de recursos para seguir em operação, mantendo a economia em movimento”, destaca.

Perdão pode recuperar negócios e créditos de baixa perspectiva de recebimento

Segundo o advogado especializado em direito tributário, Jean Paolo Simei e Silva, quando milhões de pequenos empreendedores acumulam dívidas que já não conseguem pagar, a cobrança deixa de ser apenas uma questão arrecadatória e torna-se também um obstáculo à continuidade da atividade econômica. “É sob essa perspectiva que a proposta do governo deve ser examinada”, afirma.

Ainda conforme Simei e Silva, ao retirar um passivo que acompanha o pequeno negócio, a medida pode encerrar cobranças, reduzir a insegurança financeira e abrir caminho para o acesso ao crédito, a compra de insumos e a reorganização da atividade.

“O debate fiscal precisa começar por uma pergunta simples: quanto desses R$ 12,6 bilhões seria realmente recuperado se o programa não existisse?”. O especialista explica que quando o débito é antigo, o empreendimento já encerrou suas atividades ou o devedor não possui capacidade de pagamento, o Estado pode conservar por anos um crédito que existe contabilmente, mas oferece pouca perspectiva de arrecadação.

Imagem mostra uma cabeleireira em atendimento
Minas Gerais conta com 1,8 milhão de Microempreendedores Individuais (MEIs) ativos, o que deixa o Estado em posição de destaque no número absoluto nacional, atrás apenas de São Paulo, segundo a Fecomércio-MG. | Foto: Reprodução/ Adobe Stock

“A própria Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) classifica os créditos conforme sua recuperabilidade, distinguindo aqueles com alta ou média perspectiva de recebimento dos considerados difíceis de recuperar ou irrecuperáveis. A avaliação leva em conta a situação econômica do contribuinte e sua capacidade estimada de pagamento em cinco anos”, ressalta Jean Paolo. Nesse cenário, conforme o tributarista, a remissão pode representar menos uma liberalidade e mais uma reorganização racional da carteira pública.

“Para o MEI, a possibilidade de recomeçar sem o peso de uma dívida impagável pode ser o incentivo necessário para permanecer na formalidade. Para o governo, o ganho está em substituir créditos de baixa recuperação por contribuintes que voltem a operar e a pagar regularmente suas obrigações”, encerra o especialista.

Alívio financeiro depende de juros menores e renda disponível

Para a economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG), Gabriela Martins, o ganho econômico mais concreto do perdão das dívidas dos MEIs ultrapassa o âmbito financeiro. Segundo ela, ao sair da dívida ativa o empreendedor consegue emitir certidão negativa, recupera direitos previdenciários e volta a ter acesso a crédito e a fornecedores.

Apesar de positiva, Gabriela acredita que os efeitos da medida somente serão reais e benéficos se acompanhados de crédito acessível e ambiente de consumo mais adequado. “Mais de 86% das famílias de Belo Horizonte estão endividadas e 63% possuem alguma conta em atraso. Enquanto a renda disponível estiver comprometida, o consumo adicional é limitado”, destaca.

Ainda conforme a economista da Fecomércio-MG, o anúncio do presidente Lula traz à tona a importância de se falar sobre crédito orientado, compatível com a capacidade de pagamento, e gestão para os MEIs. “O gargalo do setor nunca foi só a falta de crédito, foi o custo do crédito também. O capital de giro em antecipação de recebíveis, por exemplo, para pequenos negócios apresenta taxas de juros muito altas. O crédito se mantendo caro pode fazer com que o microempreendedor se endivide outra vez”, avalia.

Correção do teto do MEI busca acompanhar inflação acumulada

A Fecomércio-MG também é favorável à atualização do teto de faturamento do MEI anunciado por Lula. Sem reajuste há oito anos, a proposta enviada ao Congresso Nacional prevê elevação para R$ 110 mil no próximo ano e para R$ 140 mil em 2028.

“Entre 2012 e 2026, a inflação acumulada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 123%, ou seja, boa parte dos empreendedores que estouraram o teto não cresceram de verdade, apenas repassaram custos. Sem correção, a inflação vira um aumento silencioso de carga e empurra o pequeno negócio para fora do regime simplificado antes da hora”, explica Gabriela Martins.

Ela afirma que a entidade defende a correção do limite acompanhada da criação de regra de atualização automática pela inflação, preservando a lógica de escada do Simples Nacional. Nessa lógica, o empreendedor começa como MEI e vira microempresa, depois empresa de pequeno porte, sem rupturas nesse processo.

Regularização pode reabrir portas para crédito e novos negócios

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo de Souza e Silva, por sua vez, acredita que o ganho real da medida está na regularização do pequeno empreendedor. Hoje, segundo ele, um MEI com dívida inscrita na Dívida Ativa da União enfrenta uma série de restrições: tem dificuldade para conseguir crédito em bancos, não consegue emitir certidões negativas, fica impedido de vender para o poder público e corre o risco de ser excluído do Simples Nacional. Muitos acabam encerrando as atividades ou voltando para a informalidade.

“Com o fim dessas dívidas, esses negócios podem voltar a operar regularmente, com acesso a crédito e a novos clientes. Isso, sim, pode se traduzir em mais investimento e movimento no comércio local ao longo do tempo”, diz.

Assim como a economista da Fecomércio-MG, o dirigente também acredita que para que o benefício seja duradouro, o perdão precisa vir acompanhado de três frentes: acesso ao crédito, com juros compatíveis com a realidade do pequeno negócio, a atualização do limite de faturamento e capacitação em gestão financeira, para que o empreendedor tenha condições de manter as contas organizadas.

Proximidade da eleição pode limitar efeitos políticos da medida

O cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Diniz, avalia que o perdão de dívidas dos MEIs é uma tentativa do governo federal de se aproximar desse público, mas considera que o anúncio, feito poucos dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, pode não ter tempo suficiente para produzir efeitos eleitorais. Segundo ele, a medida precisa ser divulgada e associada ao governo para gerar confiança entre os beneficiados.

Diniz também ressalta que o perdão e a renegociação de débitos tributários são práticas antigas, tradicionalmente voltadas a grandes empresários, e alvo de críticas de profissionais da área fazendária por potencialmente estimular a inadimplência. “Todo mundo que não paga o imposto ou alguma obrigação tem estímulo para esperar a próxima negociação”, explica.

Paulo Diniz
Paulo Diniz, cientista político da UFMG. | Foto: Arquivo Pessoal

Na avaliação do cientista político, a medida não deve necessariamente piorar a situação orçamentária do governo, uma vez que os recursos correspondentes aos débitos não pagos já não estão disponíveis nos cofres públicos. “Para o empresário, seja ele grande ou pequeno, porém, é sempre muito bem-vinda”, observa.

Entenda o pacote de medidas para os MEIs

O governo federal anunciou nesta terça-feira (13) um pacote de cinco medidas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs), com foco na redução do endividamento, ampliação do acesso a recursos para investimento, aumento do teto de faturamento e simplificação de regras para pequenos negócios.

A principal iniciativa é o envio ao Congresso Nacional de um projeto de lei complementar que prevê o perdão das dívidas acumuladas pelos MEIs com o governo federal. A proposta poderá beneficiar cerca de 3,6 milhões de microempreendedores e alcançar aproximadamente R$ 12,6 bilhões em débitos acumulados.

Outra medida anunciada é a negociação das dívidas privadas dos MEIs. O governo pretende utilizar os instrumentos do Desenrola 3.0 para comprar débitos junto a bancos e instituições financeiras. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o estoque dessas dívidas soma cerca de R$ 6 bilhões.

A operação será realizada por meio de edital e exigirá descontos mínimos de 90% por parte dos credores. A expectativa é que a retirada simultânea das pendências públicas e privadas facilite o acesso dos empreendedores a novas linhas de crédito.

O pacote também prevê a criação do Pix MEI, programa de transferência direta de recursos para investimento produtivo. A proposta é repassar até R$ 5 mil para aquisição de equipamentos e melhorias capazes de ampliar a produção, a renda e o faturamento dos negócios.

A penúltima iniciativa é a ampliação do teto de faturamento anual do MEI, sem reajuste há oito anos. A proposta enviada ao Congresso Nacional prevê elevação para R$ 110 mil no próximo ano e para R$ 140 mil em 2028.

A quinta medida é um decreto para dar segurança jurídica à não obrigatoriedade de emissão de nota fiscal em operações com pessoas físicas. Segundo o governo, a norma busca esclarecer dúvidas surgidas durante o debate das mudanças tributárias e também alcançará os chamados Nano MEIs, grupo com faturamento de até metade do teto da categoria.

*Com informações da Agência Brasil

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026


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