Vale busca captar até R$ 7,5 bilhões na China e reforça nova rota de financiamento para empresas brasileiras

Mineradora solicita registro de programa de títulos de dívida no mercado chinês, modalidade já utilizada pela Suzano e que também está nos planos do governo federal
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Vale busca captar até R$ 7,5 bilhões na China e reforça nova rota de financiamento para empresas brasileiras
Foto: Reprodução / Reuters

A Vale pretende ampliar suas alternativas de financiamento com a entrada no mercado de títulos de dívida da China. A mineradora informou, nesta terça-feira (20), que sua subsidiária integral, Vale Overseas Limited, solicitou o registro de um programa de Panda Bonds de até 10 bilhões de renminbis (RMB), equivalentes a aproximadamente R$ 7,5 bilhões. A iniciativa abre caminho para futuras captações na moeda chinesa, mas ainda depende de aprovação regulatória e das condições de mercado.

Os chamados Panda Bonds são títulos de dívida emitidos por empresas, governos ou instituições estrangeiras no mercado doméstico chinês, denominados em renminbi, também conhecido como yuan. A modalidade permite acessar uma base de investidores diferente daquela das emissões tradicionais em dólares ou euros, ampliando as alternativas de financiamento das empresas brasileiras.

Em comunicado ao mercado, a Vale informou que o pedido foi apresentado à Associação Nacional de Investidores Institucionais do Mercado Financeiro da China (NAFMII, na sigla em inglês). O programa terá validade prevista para o período de 2026 a 2028, e os títulos eventualmente emitidos contarão com garantia integral e incondicional da mineradora.

O pedido de registro, porém, não representa uma emissão de títulos nem significa que a empresa já tenha captado os recursos. Segundo a Vale, eventuais operações dependerão, entre outros fatores, das condições do mercado financeiro.

Mercado chinês ganha espaço no financiamento internacional

A iniciativa da Vale ocorre em um momento de expansão do mercado de Panda Bonds e de maior participação de emissores estrangeiros. Segundo estudo da S&P Global Ratings China, publicado em agosto de 2026, as emissões somaram aproximadamente 160 bilhões de renminbis no primeiro semestre, alta de 68% em relação ao mesmo período de 2025.

Até 31 de julho, as emissões acumuladas em 2026 haviam alcançado 195,7 bilhões de renminbis, superando o volume registrado em todo o ano de 2025. O estoque de títulos em circulação também ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 500 bilhões de renminbis, chegando a 506,4 bilhões no fim de julho.

A participação dos emissores estrangeiros passou de 39% em 2025 para 50% entre janeiro e julho de 2026, desconsideradas as empresas chinesas constituídas no exterior. Entre os participantes desse mercado estão governos, bancos internacionais e companhias multinacionais, o que evidencia a diversificação dos emissores.

Segundo a S&P, a expansão é impulsionada pelo custo potencialmente menor do financiamento em renminbi, pelo aumento da participação de investidores institucionais e pelo aperfeiçoamento das regras para operações financeiras entre países.

Suzano já captou recursos com títulos verdes

A Vale não será a primeira empresa brasileira a acessar esse mercado. Em 2024, a Suzano, fabricante de celulose, anunciou uma captação de 1,2 bilhão de renminbis, equivalente a aproximadamente US$ 165 milhões, tornando-se a primeira empresa não governamental e não financeira das Américas a emitir Panda Bonds.

A operação foi estruturada como uma emissão de títulos verdes, com prazo de três anos e taxa de juros de 2,80% ao ano. Os recursos foram destinados integralmente ao financiamento de plantios de eucalipto certificado no Brasil.

Brasil também prepara entrada no mercado chinês

O movimento das empresas ocorre paralelamente à iniciativa do governo federal de acessar o mercado chinês por meio de títulos soberanos. Em junho de 2026, o Ministério da Fazenda iniciou os procedimentos para uma primeira emissão de dívida pública brasileira em yuan, com o objetivo de diversificar as fontes de financiamento do Tesouro Nacional e ampliar o acesso a investidores asiáticos.

A presença de emissores públicos e privados brasileiros no mercado chinês pode contribuir para estabelecer referências de preços e ampliar o conhecimento dos investidores locais sobre o risco de crédito do País e das empresas brasileiras. A efetiva captação de recursos, no entanto, dependerá das condições de cada operação e da avaliação dos investidores.

Segundo a S&P, a vantagem econômica dos Panda Bonds depende do custo total da operação, incluindo eventuais despesas com proteção cambial. Embora o mercado chinês apresente condições competitivas de financiamento, mudanças nas taxas de juros, na cotação do renminbi ou nas regras para movimentação internacional de recursos podem afetar a atratividade das emissões.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.


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