Uma nova rota de financiamento
O Tesouro Nacional confirmou a intenção em realizar sua primeira emissão de títulos soberanos em yuan, os chamados panda bonds. Como esperado, isso despertou dúvidas e interpretações variadas. Afinal, por que um país que possui mais de US$ 300 bilhões em reservas internacionais e acesso consolidado aos mercados globais decidiria se endividar na moeda chinesa?
Historicamente, a dívida externa brasileira esteve concentrada em dólares e, em menor escala, em euros. Essa concentração cria um risco: quando o real se desvaloriza frente a essas moedas, o custo da dívida aumenta. Ao incorporar o yuan à sua estratégia de financiamento, o Tesouro busca diversificar a exposição cambial e ampliar sua base de investidores. Não se trata de substituir o dólar pelo yuan, mas de reduzir a dependência de poucas fontes de financiamento. Em um cenário marcado por juros elevados, tensões geopolíticas e crescente fragmentação econômica, ampliar as alternativas me parece uma decisão prudente.
Não podemos esquecer, também, que a China é nosso principal parceiro comercial. O fluxo de comércio com os asiáticos supera US$ 170 bilhões anuais e continua crescendo. Nos últimos anos, Brasil e China avançaram na integração financeira, com mecanismos de liquidação direta entre reais e yuan e acordos de swap entre os bancos centrais. A emissão de panda bonds é mais um passo nessa aproximação.
É importante destacar que a dívida externa não representa hoje uma vulnerabilidade relevante para o País. Diferentemente do que ocorria nas décadas de 1980 e 1990, quando crises cambiais frequentemente colocavam a solvência brasileira em xeque, a parcela da dívida pública denominada em moeda estrangeira é relativamente pequena e amplamente coberta pelas reservas internacionais. Nosso verdadeiro desafio fiscal está no crescimento da dívida total, especialmente interna, e no elevado custo de seu financiamento doméstico.
Penso, talvez, que o principal efeito da emissão não esteja nem mesmo no setor público. Quando um governo acessa um novo mercado, cria uma referência para que empresas privadas façam o mesmo. Foi o que ocorreu com a Suzano, pioneira entre as companhias brasileiras na emissão de títulos em yuan. Com uma referência soberana de preço e liquidez, outras empresas poderão avaliar essa alternativa de captação, especialmente aquelas com forte relação comercial com a China.
Naturalmente, existem riscos. Uma valorização do yuan frente ao real aumentaria o custo da dívida. Mas esse é justamente o motivo pelo qual a estratégia deve ser encarada como diversificação e não como substituição.
O valor econômico da primeira emissão provavelmente será modesto. Seu simbolismo, porém, é relevante. Ampliar fontes de financiamento, fortalecer laços com o principal parceiro comercial e criar novas oportunidades para empresas brasileiras, é um movimento natural de adaptação às transformações da economia global.
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