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Akira Retorna aos Cinemas em 4K: O Clássico Japonês Sem o Qual Não Haveria Matrix

Relançamento é uma oportunidade imperdível para relembrar a distopia que mudou tudo no anime
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O Japão de 1988 gestou pérolas para a cultura pop (os videogames da Sega inclusos), mas nada se compara à fissura aberta por Akira. Marco zero do anime e do mangá moderno, a obra de Katsuhiro Otomo moldou o imaginário de toda uma geração. O relançamento em 4K nos cinemas (previsto para 27 de agosto) não é mero fetiche tecnológico: é a chance de rever cada traço neon dessa distopia como se fosse a primeira vez. Afinal, a visão de mundo que redefiniu o cyberpunk ganha aqui seu acabamento definitivo – uma experiência para se assistir de boca aberta.

Existe o cinema de animação antes e depois de Akira. A adaptação radical de Otomo de seu próprio mangá mudou, de uma vez por todas, o olhar do Ocidente sobre a animação nipônica. Foi o primeiro dominó a tombar numa reação em cadeia global. Sem a poeira e o neon dessa Neo-Tóquio, a cultura pop jamais teria conhecido Matrix.

Trata-se da história de um garoto dotado de imensos poderes telecinéticos, largado em um futuro distópico e prestes a colapsar. Bastou isso para mudar toda uma geração: de devotos do mangá a leitores de quadrinhos ocidentais.

“Atemporal” virou clichê, mas ver o filme pela primeira vez hoje ainda causaria assombro. Na tradição futurista dos anos 80 (tal qual Blade Runner), a fita errou a conta: situou 2019 como a era da ruína tecnológica, algo distante da nossa realidade. E o mais impressionante nesse legado: Akira praticamente não envelheceu em quase 40 anos.

O regresso do filme aos cinemas escancara uma verdade: pouquíssimas animações no mundo ostentam uma beleza tão acachapante. Vinte e um anos após a aniquilação de Tóquio, a Neo-Tóquio ressurgida das cinzas é uma megacidade crepuscular e sem lei. Reconstruída sobre os escombros, a cidade está entregue ao caos. No centro dessa vertigem toda está Kaneda, jovem líder da gangue de motoqueiros Capsules. A vida de crimes em alta velocidade desmorona quando seu melhor amigo, Tetsuo, cai nas mãos do aparato militar do Estado.

Conforme o filme desvela suas camadas, sua estranheza se revela: o desfecho descamba para um transe psicodélico e metafísico que evoca o rigor espacial de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

O impacto estético de Akira é inegável. A já lendária cena do deslizamento da moto foi homenageada em tudo, desde Batman: A Série Animada até Não! Não Olhe!, de Jordan Peele. Suas paisagens urbanas incrivelmente detalhadas e a fluidez da animação continuam a impressionar quase quatro décadas depois.

Hollywood tenta há décadas emplacar uma adaptação live-action de Akira. De Steven Norrington a Taika Waititi, vários diretores entraram e saíram dessa ciranda ao longo dos anos. Pouco importa: a obra de Otomo não precisa de uma versão ocidental amaciada para garantir seu lugar na história. É um filme raro, imune à ação do tempo, que justifica cada exagero rasgado por críticos e entusiastas. Que sorte a nossa habitar este mundo pós-Akira.

Akira
Foto: Divulgação Sato

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Sobre o autor

Thiago Barcellos

Cineasta, crítico de cinema e mestre em artes. Pesquisa o cinema a partir das narrativas audiovisuais e de suas construções estéticas e afetivas, com foco na linguagem e na experiência do olhar.

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