O novo livro de Ana Cecília Carvalho
Sob novo título e em um volume – “E se eu disser apenas a verdade” (Sinete, 152 páginas) – lançado há poucos dias na sede da Academia Mineira de Letras, onde ocupa a cadeira de número 36, Ana Cecília Carvalho reuniu o “Livro de Registros” e “Uma mulher, outra mulher”, as premiadas coletâneas de narrativas breves com que ela se apresentou aos leitores como contista. Nestes primeiros textos ficcionais (de 76 e 93, respectivamente), a autora já mostrava, em alguma medida, a que veio, deixando entrever as trilhas que percorreria no futuro, como as que resultaram na densa ‘trilogia da inquietude’, lançada entre 2017 e 2019 (e composta por “Os mesmos e os outros: o livro dos ex”; “O foco das coisas & outras histórias”, e “A memória do perigo”). Reconhecidas nacionalmente, as duas obras iniciais contêm elementos que, mais tarde, se tornariam recorrentes em suas tramas, sendo, portanto, ‘chaves’ fundamentais para compreender as ‘linhas de força’ da sua literatura.
Entre eles, necessário destacar a instauração, em várias histórias, de um universo bastante particular – dividido entre o oculto e o manifesto, o inconsciente e o consciente, o sono e a vigília, o sonho e a realidade, o silêncio e o som, a pausa e o movimento – em que os personagens circulam, muitas vezes, de modo inesperado e surpreendente, reféns de razões que desconhecem e de sentimentos que não entendem, como se não fossem integralmente responsáveis por governar seus atos e suas palavras. Além deles, há também os objetos que os circundam e que com eles contracenam, todos possuidores de vida e personalidade. Assim como as pessoas, aqui as coisas respiram, produzindo sentidos e interferindo no curso dos acontecimentos. Como escreveu a professora Lyslei Nascimento, na quarta capa, sobre a obra: “O tempo narrativo é, pois, dos sentidos, não do registro factual. Não há receita de vida, nem consolo nesses textos. Há uma corrente de nós sobre nós, de linhas e trilhas sonoras que fazem dançar as máscaras de verdades e mentiras, de ontem, de hoje, de sempre”.
Roçar o indizível também é marca da escrita da autora, hábil em forçar os limites da representação do real pela linguagem, explorando suas dobras e seus pontos cegos, visitando lugares perigosos. “O que escrevo me assombra”, disse Ana Cecília, certa feita, refletindo sobre a frequência com que caminha sobre territórios antes não imaginados. “Escrevo para saber o que penso”, acrescentou, revelando que prefere a aventura ao cálculo, a coragem ao plano, a novidade ao pré-concebido. Tudo isso – e é bom que se frise – feito em estilo elegante e culto, fruto de rico repertório intelectual e estético, generoso nas referências à música, ao cinema, às suas heranças culturais e às memórias de seus antepassados. Sempre leal à sua mais fina sensibilidade.
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