Ouvir e enxergar
“A Organização das Nações Unidas está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exércitos nem arsenais – nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.
Em 1946, na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez. A este pecado original, soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar conflitos regionais em uma conflagração de proporções globais. Os que detêm as rédeas das decisões devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir. Não desconheço as realidades do poder. Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo”.
Cumprindo a tradição de abrir a sessão inaugural da Assembleia Geral Anual da Organização das Nações Unidas e depois de lembrar que lá estava pela décima vez, o presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva aproveitou a ocasião para manifestação que deveria ser, para a humanidade, objeto de profunda e imediata reflexão. Sem meias palavras e com precisão cirúrgica, Lula demonstrou o esvaziamento, para não dizer desmoralização, do organismo criado para devolver ao planeta, terminada a Segunda Guerra, esperanças de paz e de um ordenamento mais sensato com foco no entendimento, na colaboração e na prosperidade melhor compartilhada.
Não aconteceu e o presidente brasileiro, que em diversos momentos teve que interromper sua fala para receber aplausos, foi simples e direto no cumprimento da tarefa a que se propôs. Ou de chamar os líderes mundiais, alguns deles, como o presidente dos Estados Unidos, ali presentes, ao entendimento de que somente o multilateralismo oferece aos ingredientes capazes de garantir a todos a possibilidade de convívio mais harmonioso. Como ponto de partida para resgate dos bons propósitos presentes à primeira Assembleia Geral realizada em 1946. O sonho do equilíbrio jamais alcançado, hoje produzindo a sensação, se não a quase certeza, de que a humanidade caminha na direção do desastre.
Cabe esperar que os aplausos dirigidos ao presidente brasileiro, na terça-feira (22), tenham sido mais que cortesia ou apenas diplomacia.
Ouça a rádio de Minas