Café sem Filtro

O café precisa provar que é sustentável?

Rastreabilidade, preservação ambiental e responsabilidade na produção são temas cada vez mais presentes nas negociações internacionais
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Durante muito tempo, falar em sustentabilidade na cafeicultura significava, principalmente, discutir preservação ambiental, uso consciente da água, conservação do solo e redução de impactos na produção. Esses temas continuam fundamentais, mas uma nova exigência vem ganhando força no mercado internacional: não basta ser sustentável, é preciso conseguir demonstrar isso.

Essa mudança tem relação direta com a maneira como o café é comercializado no mundo. Compradores, torrefações e grandes empresas estão cada vez mais atentos à origem dos grãos, às condições de produção e à capacidade de rastrear cada etapa da cadeia. Na prática, a história do café começa a ter um peso que vai muito além das informações impressas na embalagem.

Um dos principais exemplos é o Regulamento Europeu contra o Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR. A legislação estabelece que produtos como café, cacau, soja e madeira comercializados no mercado europeu precisam comprovar que não estão associados ao desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020, além de atender à legislação do país de origem. Para isso, exige informações sobre a procedência e a localização das áreas de produção. As regras começam a ser aplicadas às médias e grandes empresas em 30 de dezembro de 2026, enquanto a maior parte das micro e pequenas empresas terá prazo até junho de 2027.

A mudança representa um avanço na transparência das cadeias produtivas, mas também traz desafios. Para muitos produtores, especialmente aqueles que trabalham em pequenas propriedades, organizar documentos, georreferenciar lavouras e disponibilizar informações pode representar custos e dificuldades adicionais. O desafio é garantir que essas exigências não acabem excluindo justamente quem precisa de mais apoio para se adaptar.

Um relatório publicado em agosto de 2026 pelo International Institute for Sustainable Development (IISD) ajuda a dimensionar essa questão. Segundo o estudo, entre 24% e 42% da produção mundial de café já atendia a padrões voluntários de sustentabilidade em 2023. Entretanto, apenas cerca de 51% desse volume foi efetivamente comercializado como café certificado. Isso revela uma contradição: existe uma parcela significativa da produção que adota práticas reconhecidas, mas nem sempre consegue transformar esse esforço em valorização comercial.

E aqui está uma questão importante: sustentabilidade não pode ser uma responsabilidade exclusiva do produtor. Se o mercado exige rastreabilidade, preservação ambiental e melhores condições de trabalho, também precisa reconhecer economicamente quem investe nessas práticas.

No fim das contas, a sustentabilidade do café não deveria ser apenas um selo, um certificado ou uma exigência para acessar determinados mercados. Ela precisa fazer parte de uma relação mais equilibrada entre quem produz, quem comercializa e quem consome.

O consumidor pode até não conhecer a propriedade onde seu café foi cultivado, mas deveria ter a possibilidade de saber de onde ele veio e quais práticas estão por trás daquela xícara. E o produtor precisa encontrar no mercado um reconhecimento pelo trabalho realizado.

Afinal, se queremos um café cada vez mais sustentável, precisamos garantir que essa sustentabilidade também seja economicamente viável para quem está na origem de tudo.

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Sobre o autor

Daniel Alves

Empresário, diretor de fotografia, coffee hunter, especialista em cafés e barista.