Indústria Inteligente

Em um ano caro, produtividade será a chave

Juros elevados, desaceleração industrial e mudanças tributárias e trabalhistas exigirão controle de custos, eficiência operacional e investimentos mais seletivos

As projeções para 2027 ficaram mais duras na última semana. O Boletim Focus, divulgado nesta terça-feira (3), passou a indicar Selic de 12,50% ao fim do próximo ano, IPCA de 4,76%, dólar a R$ 5,40 e crescimento do PIB de 1,2%. Já o Itaú projeta inflação de 6,1% em 2027, Selic mantida em 13,75% durante todo o ano, câmbio a R$ 5,60 e PIB de 0,5%, citando pressões de combustíveis, câmbio depreciado e os efeitos estimados da reforma tributária e da nova jornada de trabalho. O cenário externo não ajuda, com juros em alta nas economias desenvolvidas e petróleo caro.

A indústria termina 2026 desacelerando. Entre janeiro e agosto, a produção no setor de transformação recuou 0,1%, segundo o IBGE, enquanto a extrativa cresceu 6,1%. A utilização da capacidade instalada caiu para 76,9% e o índice de confiança do empresário industrial da CNI completou 22 meses abaixo da linha dos 50 pontos.

A isso se somam duas mudanças estruturais. Em 1º de janeiro de 2027, a CBS passará a ser cobrada em alíquota cheia, PIS e Cofins serão extintos e o IPI zerado fora da Zona Franca. O TCU calculou alíquota de referência de 11,3% para a CBS, acima dos 9,21% até então estimados pelo Comitê Gestor do IBS, e o Senado tem até dezembro para fixá-la por resolução. O IBS permanece na alíquota de teste de 0,1% em 2027 e 2028, com alíquota de referência a ser definida a partir de 2029. O Imposto Seletivo, ainda dependente de lei específica, poderá incidir com teto de 0,25% sobre a extração mineral. Na frente trabalhista, a Emenda Constitucional 141 reduz a jornada máxima para 42 horas em dezembro deste ano e para 40 horas em dezembro de 2027, sem redução salarial, o que eleva o custo da hora trabalhada e exige redesenho de escalas nas operações contínuas.

Nenhuma dessas variáveis está sob controle do executivo. Apenas a produtividade, quanto a empresa extrai de cada ativo, de cada hora, de cada real de capital de giro e de cada contrato, vai decidir se a margem resistirá.

A agenda é conhecida, mas precisa ganhar prioridade. Fazer mais com o ativo que já existe, elevando disponibilidade, taxa de ocupação e rendimento antes de pedir capex novo. Atacar as perdas do processo, como consumo específico de energia e insumos, retrabalho e variabilidade. Disciplina nos gastos administrativos, com orçamento enxuto e revisão de estruturas. Gestão ativa de compras e contratos, renegociando reajustes, indexadores cambiais e níveis de serviço. Programação de produção e estoques calibrada para liberar capital de giro, que custa caro com a Selic alta. Eficiência comercial, com disciplina de preço e mix, e uso do câmbio para avançar em exportação. Inteligência artificial aplicada tanto às atividades de apoio quanto ao chão de fábrica, em manutenção preditiva, planejamento e controle de processo. E investimentos submetidos a um funil rigoroso, com o custo de capital como régua e prioridade para projetos de retorno rápido.

Nada disso funciona se ficar no papel. Os executivos devem mergulhar na busca dessas oportunidades, quantificar cada uma, incorporá-las ao orçamento de 2027 com metas, donos e prazos, e sustentar uma governança rígida ao longo do ano, com reuniões mensais de resultado, análise de desvios e correções de rumo. Em um ano caro, a diferença estará na disciplina com que cada empresa transforma produtividade em resultado.

Leia também: Antes do orçamento, a estratégia: hora de revisitar o plano de longo prazo

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

André Chaves
Sobre o autor

André Chaves

vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital


Publicidade Legal

Impresso

Ver outras datas

Digital

Ver outras datas
Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas

Acessos importantes

Especial
Aos 94 anos, Diário do Comércio revisita as campanhas que ajudaram a moldar Minas