Tinto Brass está morto
O cineasta italiano que levou o erotismo ao mainstream, entupindo as salas de cinema e atraindo polêmica, morreu nesta última quarta-feira, aos 93 anos.
Nascido Giovanni Brass em Milão, em 1933, fruto de uma família de raízes venezianas – Veneza seria, ao longo da vida, a sua cidade -, dizia ter descoberto a sua vocação assim que pisou, ainda menino, numa sala de cinema. O nome pelo qual veio a ser conhecido, Tinto, chegou por via do avô, o pintor Italico Brass (seu nome era Tintoretto). Filho de pai autoritário, um advogado intransigente que ficou francamente ao lado dos fascistas de Mussolini. Aos 18, foge de casa com uma mãozinha da mãe e foi se meter em estudar direito em Pádua.
Irônico como sempre foi, contaria mais tarde que era mais fácil encontrá-lo nos puteiros de Veneza no intento de aperfeiçoar a sua educação sexual do que na universidade. Conheceu Henri Langlois, o histórico cofundador da Cinemateca Francesa, que lhe recomendou dar um pulo em Paris.
Já de mala e cuia em Paris, vira assistente de direção do reputado Roberto Rossellini.
Em 1964, por encomenda de Umberto Eco, assina dois curtas para a Trienal de Milão. Faz estrondo. Mas estávamos ainda distantes do Tinto Brass que se viria a cristalizar na memória coletiva. Este chegaria anos mais tarde.
Antes, houve uma divertida mistura de ficção científica com comédia de costumes, com Alberto Sordi no elenco (O Disco Voador, 1964).
Há também o período londrino marcado pela contracultura, como o thriller Com o Coração na Garganta (1967), com Jean-Louis Trintignant, ou Os Desajustados do Amor (1969), obra já formalmente mais atrevida, protagonizada por Vanessa Redgrave.
Ao jornal milanês La Repubblica disse: “Fiz muitos filmes eróticos por considerar o erotismo uma chave fundamental da expressão humana. Acho que ajudei a mudar um pouco a visão das pessoas sobre o Eros”.
Para a crítica, um talento visual a serviço da vulgaridade. Nos Estados Unidos, um gênio do softcore europeu. Na França, a quintessência do filme erótico. No Brasil, sob os anos de chumbo, o rei do cinema pornô.
Brass foi, acima de tudo, um estilista do excesso. Transitou pelas mais diversas vertentes do cinema: da vanguarda anárquica dos anos 60 ao subgênero giallo. Arriscou-se no spaghetti western (Yankee, 1966) e fez dramas políticos satíricos, até se consolidar como o mestre do erotismo autoral e da contracultura voyeurística.
Sua fortuna cinematográfica e escândalo definitivo: o apocalipse decadente de Calígula (1979), o filme mais caro e caótico da história da fita erótica.
Teve uma vida destemida, desvairada, ousada, dedicada a uma obsessão única, irreprimível e catastrófica: o set de filmagem.
Nos últimos tempos, refugiou-se nos arredores de Roma, em Isola Farnese. Mas sua pátria verdadeira era a lagoa de Veneza, para onde pretendia voltar em forma de cinzas, finalmente dissolvido no próprio cenário que tanto amou filmar.
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