Indústria Inteligente

Selic a 14%: alívio no discurso, desafio ainda no caixa da indústria

Como o corte de juros afeta investimentos e o cenário econômico no Brasil atualmente
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00

Na última semana, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) cortou a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março, quando a taxa estava em 15%, com decisão unânime dos sete membros do comitê. O mercado já esperava o movimento, mas as entidades industriais mostraram alívio parcial: o corte foi acertado, porém insuficiente para destravar investimentos.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) lembrou que os juros seguem restritivos há 55 meses, pressionando empresas e famílias. Segundo a entidade, a Selic está 3,6 pontos acima do nível calculado pela Regra de Taylor (hoje 10,4%), indicando espaço para cortes mais rápidos sem comprometer o combate à inflação. A taxa de juro real, perto de 10% ao ano, segue bem acima da taxa de equilíbrio de longo prazo do Banco Central, de 5%.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) também considerou o corte correto, mas destacou que o custo de capital elevado adia investimentos, dificulta a modernização produtiva e limita a competitividade. A indústria de transformação cresceu só 0,4% no primeiro semestre, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um reflexo do custo do crédito. Levantamentos internacionais apontam o Brasil entre as economias com maior juro real do mundo.

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) reforçou que a queda sustentável dos juros depende de mais do que decisões do Banco Central: exige coordenação entre política monetária e fiscal, com credibilidade fiscal e menores prêmios de risco. Sem isso, a política monetária perde eficácia e a queda da inflação fica mais custosa. O próprio BC sinalizou que a extensão do ciclo depende da convergência da inflação à meta, reforçando a cautela para os próximos meses.

Para lideranças de setores intensivos em capital, como siderurgia, mineração, óleo e gás, celulose e papel, química e infraestrutura, o recado é direto: o corte de juros é bem-vindo, mas não é motivo para relaxar a disciplina de investimento. O custo de capital seguirá elevado por mais tempo do que o desejável, e não é razoável esperar passivamente por juros mais baixos para retomar projetos represados. O caminho responsável segue o defendido nesta coluna: revisar o portfólio de capex com critérios rigorosos, priorizar projetos com retorno resiliente a juros altos, atualizar premissas de custo de capital e manter governança forte sobre prazos e benefícios.

Investimentos em produtividade, eficiência energética e modernização de ativos seguem como prioridade, por não dependerem de um cenário macroeconômico mais favorável para gerar retorno.

Vale separar com clareza o obrigatório, que inclui segurança, compliance e continuidade operacional, do discricionário, sujeito a critérios mais rígidos enquanto o custo de capital não cede de forma consistente.

A trajetória de queda da Selic é positiva e deve continuar. Mas, para a indústria, o resultado concreto virá menos da velocidade dos cortes e mais da capacidade de cada empresa de operar com eficiência em um cenário de juros ainda restritivos.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

André Chaves

Vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas