Da Copa a Ceuta
As comemorações da conquista da Copa pela Espanha e o bom desempenho do Marrocos, que será uma das sedes da próxima Copa, duraram pouco. Na Espanha, os incêndios estão se alastrando e, como se não bastasse isso, 75 mil marroquinos invadiram um enclave espanhol no território marroquino no final de julho. Ceuta, território espanhol na terra marroquina, junto com outra cidade, Melilla, resquícios da história colonial, mas fundamental para o controle de Gibraltar, porta naval da Europa para o mundo.
A invasão aconteceu no dia da celebração anual da ascensão ao trono do rei Mohamed VI do Marrocos e com total surpresa dos espanhóis. O fato foi a repetição de invasão em 2021, mas muito maior. Por que milhares invadiram um enclave espanhol, sem reação da polícia marroquina? A Suprema Corte espanhola decidiu que a administração é obrigada a dar asilo aos emigrantes ilegais vindo pelo mar. Por outro lado, enquanto outros países europeus, sem falar nos EUA, estão restringindo a imigração, a Espanha está legalizando 500 mil imigrantes e tendo uma política muito liberal. E a notícia de que as portas estão abertas se espalhou pelo TikTok, Instagram e outros. Quem espalhou a notícia, ninguém sabe e há até suspeita que foi tudo organizado. Ou por algum país ou por narcotraficantes que dominam aquela área.
A União Europeia, que iniciou em junho o novo pacto imigratório, baseado na solidariedade e no controle de fronteiras, tremeu. A Itália fechou as fronteiras com a Espanha, vários países protestaram contra a negligência espanhola, e a UE rachou. No meio da semana, os ânimos serenaram, 70 mil voltaram para o Marrocos, 85 morreram, mas o susto da invasão de imigrantes ilegais caiu no pleno verão da Europa.
Para o Brasil, o Marrocos é importante fornecedor de fosfatos, mais de 1,5 bilhão de dólares ao ano, mas a crise migratória na Europa só bate quando batem nos brasileiros, como os espanhóis já fizeram em 2018, no aeroporto de Barajas ou quando Vini Jr. é seguidamente xingado nos estádios espanhóis. Enquanto 10% dos marroquinos vivem no exterior e mandam para o país 12 bilhões de dólares, 8% do PIB, na Espanha 20% da população é de estrangeiros e sem eles o PIB pode cair 19% até 2050.
Envelhecimento de população na Europa, falta de mão de obra, na Eslovênia estão contratando filipinos e nepaleses, rejeição das populações católicas aos imigrantes muçulmanos, crise humanitária e guerras na África, falta de emprego, como no Marrocos, entre outros, estão fortalecendo movimentos antimigratórios e fortalecendo a extrema direita na Europa. E aí, a necessidade de mão de obra, a mudança demográfica e os direitos humanos criam desafios lá, mas sem percebermos que existe aqui também. Mas nem lá e nem aqui sabem como resolver. Sem falar no nosso vizinho no norte do continente.
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