Redes de colaboração: uma resposta ao vácuo global
“A era da sustentabilidade soft acabou”, escreveu recentemente John Elkington, conhecido como o pai do Triple Bottom Line (Tripé da Sustentabilidade), conceito que mede o sucesso de um negócio por meio dos pilares social, ambiental e econômico. Para Elkington, a sustentabilidade soft, voluntária, consensual, apoiada em boa vontade corporativa e em fóruns multilaterais, está dando lugar a uma sustentabilidade hard, imposta por guerras, choques energéticos e disputas por recursos críticos. Nesse cenário onde a cooperação internacional se desintegra, os compromissos corporativos recuam e os recursos são destinados para a segurança nacional, fica a pergunta: quem vai preencher esse vácuo?
Por incrível que pareça, com o recuo dos Estados Unidos (EUA) nas questões ambientais, a China, maior emissor de CO2 do mundo, vem se apresentando como defensora de iniciativas para combater as mudanças climáticas, com metas cada vez mais ambiciosas e investimentos cada vez maiores em transição energética. E isso, de fato, não tem a ver com a sustentabilidade soft, mas com a hard. Investir em tecnologia verde e minerais críticos é, também, uma forma de poder nacional. Segundo Elkington, precisamos parar de esperar consenso global, parar de contar com ação corporativa voluntária, parar de tratar defesa e segurança como periférica à sustentabilidade.
Nessa lógica, a resposta ao vácuo global não deve vir só do posicionamento dos países, mas também de arranjos locais. É neste contexto que as redes colaborativas surgem como alavancas potenciais da sustentabilidade. Não que colaborar seja fácil. Quanto mais heterogênea a rede, maior o potencial de conflito. Empresas de portes diferentes, setores distintos e culturas organizacionais diversas mergulham em desafios reais de colaboração. Empresas que decidem trocar informações técnicas, criar padrões comuns ou investir juntas em tecnologias enfrentam tensões sobre como dividir os ganhos, proteger o que é estratégico, manter a confiança ao longo do tempo.
Mas se aí moram as fontes de atrito, também moram as fontes de inovação, a diversidade necessária para combinar habilidades, expertises e conhecimentos complementares. No entanto, para que isso ocorra, é preciso valorizar as diferenças. Como empresas alinhadas ao capitalismo consciente já buscam o engajamento com stakeholders distintos, partem na frente nesse tipo de arranjo. Ainda assim, transformar alinhamento em compromisso duradouro demanda também governança, regras e práticas que orientam a ação conjunta.
Como os anos à frente serão hard para a sustentabilidade, é importante que, como contraponto, cada região busque articular iniciativas de baixo para cima, ao invés de ficar aguardando os rearranjos de cima para baixo. Nesse sentido, participar de redes colaborativas pode ser um caminho virtuoso. Mas será que temos redes fortes o suficiente para sustentar aqui o que o mundo já não garante lá fora? A resposta virá da nossa capacidade de construir pontes entre os três setores da sociedade.
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