Do cinema ao Inferno: O Retorno Sombrio de John Carpenter com Cathedral
John Carpenter, o diretor de O Enigma do Outro Mundo (1983) e de Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), é saído da escola do filme B e da televisão. Assim como Brian de Palma e Spielberg.
Halloween (1978), slasher dos mais famosos, e que era apinhado de nossas inquietudes mais primitivas, é talvez seu filme mais importante. A obra desconstrói a noção do domicílio como local protegido em uma calma periferia dos Estados Unidos (EUA) através da câmera subjetiva onde se emula a presença sombria de um psicopata mascarado que se esgueira por esquinas desérticas e pelas frestas dos closets. Custou-lhe US$ 230 mil e faturou US$ 500 milhões ao redor do globo, conferindo a Carpenter a inclusão de seu nome ao panteão dos grandes cineastas do gênero.
Em Fuga de Nova York (1981), uma metrópole é convertida, nas mãos de Carpenter, em imensa colônia penal onde toda a escória de uma nação é desovada. É ali, no entanto, que o soldado contraventor, capitaneado por Kurt Russell, precisa resgatar o presidente dos EUA em troca de anistia do mesmo governo que deseja expurgá-lo. Uma emblemática ficção científico-criminal que passou à história.
Embora cultuado nos anos 80, seu declínio artístico ficou evidente na década subsequente principalmente diante do equivocado Fuga de Los Angeles (1998), malfadada continuação de Fuga de Nova York. Ainda assim, mesmo sem dirigir longas desde Aterrorizada (2010), Carpenter continua imerso no horror. Mês passado, ele lançou um programa duplo: um romance gráfico violento e um álbum de gothic metal – subgênero do heavy metal, mais atmosférico, marcado por texturas sombrias e climas fúnebres – ambos chamados Cathedral.
O quadrinho nasceu de um pesadelo que teve – uma novidade para ele -, em que descia de elevador por infernos dantescos sob uma igreja para enfrentar um demônio. Na história, uma personagem de nome Christine vinga a morte do pai, eviscerado pelo monstro. (“Eu provavelmente sou a garota”, reflete Carpenter. “Ou o diabo do subterrâneo. Eu bem que podia ser ele também”).
Nos tempos em que atraía turbas aos cinemas, ele era a própria vanguarda do medo e da distopia cinematográfica. Hoje, no entanto, permanece meio à margem, quase intraduzível para as novas audiências, mesmo quando requentado em refilmagens. Fato é que toda geração possui um código. A diferença, ao menos em começo de carreira entre Carpenter e seus patrícios, era a de um homem extremamente apocalíptico.
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