O preço da dívida americana
O Treasury de 10 anos rompeu 5% na segunda-feira (14), atingindo o maior nível desde 2007. Na ponta mais longa, o movimento é ainda mais expressivo: o título de 30 anos se aproxima de 5,5%, patamar que não era observado desde a véspera da crise de 2008.
Há dois gatilhos recentes. O primeiro é o petróleo. A escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio e interrupções na infraestrutura de transporte levaram o Brent para acima de US$ 105. Um choque de energia pressiona a inflação e dificulta o trabalho dos bancos centrais.
O segundo é o Federal Reserve (Fed). Depois de meses de expectativa de cortes, voltou à mesa a possibilidade de alta. Os dados de agosto reforçaram essa preocupação: o núcleo do PCE, inflação ao consumidor acompanhada pelo Fed, estava em 3,3%, enquanto a inflação do produtor acelerou para 5,4% em 12 meses.
Mas petróleo e Fed explicam o gatilho, não toda a história. A questão estrutural está nas contas públicas americanas. O déficit chegou a US$ 1,97 trilhão nos 11 primeiros meses do ano fiscal, a dívida superou US$ 40 trilhões e os juros pagos já ultrapassam US$ 1 trilhão. O custo da dívida equivale a 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB), e projeções apontam para uma dívida de 120% do PIB em 2036.
Com o governo emitindo grandes volumes de títulos, os investidores passaram a exigir maior remuneração para financiar prazos longos. O chamado prêmio de prazo voltou a ficar positivo em 2023, após anos negativo. O fato de o Treasury de 30 anos subir mais que o de 10 anos reforça essa leitura: o mercado não está precificando apenas a próxima decisão do Fed, mas um prêmio maior para carregar dívida americana por décadas.
As consequências ultrapassam os Estados Unidos. Juros longos mais altos elevam a taxa de desconto usada na precificação dos ativos, pressionando especialmente empresas de maior duration e reduzindo o prêmio de risco das ações. Quanto maior o custo de financiamento, maior também a despesa com juros. Para emergentes, o canal de transmissão é ainda mais direto. Treasuries mais rentáveis tornam relativamente menos atrativos os ativos de países como o Brasil, favorecendo o dólar e reduzindo o incentivo a operações de carry trade. Bolsa e câmbio costumam reagir primeiro.
Por aqui, há ainda uma questão monetária. Enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) reduz a taxa básica de juros (Selic), o Fed discute uma política mais restritiva. Isso não impede o Brasil de seguir seu próprio ciclo, mas reduz o espaço para um descolamento prolongado. A curva brasileira passa a incorporar, além dos riscos domésticos, uma taxa de desconto internacional mais elevada.
O Treasury a 5%, portanto, não é apenas uma notícia sobre os Estados Unidos. É o preço que o mercado está cobrando para financiar uma dívida que cresce rapidamente. E, quando o preço do dinheiro sobe no centro do sistema financeiro global, economias emergentes precisam pagar mais para continuar atraindo capital.
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