Capitalismo Consciente

O paradoxo das empresas que falam em propósito, mas descartam pessoas

Problema não está necessariamente em demitir, mas na forma como se demite
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00

Nunca se falou tanto sobre propósito, cultura, pertencimento e valorização das pessoas. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: o que acontece com esses valores quando um profissional deixa de ser necessário para a organização?

É relativamente simples falar sobre pessoas no centro quando os resultados são positivos, os talentos são necessários e os interesses permanecem alinhados. O verdadeiro teste de uma cultura começa quando essa relação precisa ser encerrada.
Empresas mudam suas estratégias, estruturas são redesenhadas, posições deixam de existir e desligamentos fazem parte da dinâmica dos negócios. O problema, portanto, não está necessariamente em demitir, mas na forma como se demite.

É nesse momento que surge um dos paradoxos mais relevantes das organizações contemporâneas: empresas que constroem discursos sofisticados sobre propósito e humanização, mas ainda tratam o desligamento como uma ruptura meramente administrativa.

Se o Capitalismo Consciente propõe uma organização orientada por propósito, liderança consciente, cultura e geração de valor para seus diferentes stakeholders, o colaborador não deveria deixar de ser considerado parte dessa equação simplesmente porque seu contrato chegou ao fim.

Propósito não pode ser apenas uma declaração institucional. Precisa aparecer justamente nas decisões mais difíceis.
Isso significa compreender que uma relação profissional pode terminar sem que desapareça a responsabilidade sobre a forma como ela termina.

Um desligamento mal conduzido não elimina apenas um vínculo empregatício. Pode comprometer a confiança, a reputação, o sentimento de pertencimento e a percepção dos profissionais que permanecem na organização.

Quem fica também observa.

Observa como a empresa trata quem sai, como suas lideranças se posicionam diante de decisões difíceis e, principalmente, se os valores estampados nas paredes sobrevivem quando passam pelo teste da prática.

Nesse contexto, apoiar uma transição de carreira deixa de ser apenas uma iniciativa de Recursos Humanos e passa a representar uma decisão de coerência organizacional.

Programas de outplacement, preparação para novos ciclos profissionais, comunicação respeitosa e apoio estruturado à recolocação não significam assumir a responsabilidade pela carreira do indivíduo. Significam reconhecer que existem formas mais responsáveis de concluir uma relação que, ao longo de anos, também gerou valor para a empresa.

Essa perspectiva exige uma mudança importante: deixar de enxergar o desligamento como o último ato de uma relação trabalhista e passar a compreendê-lo como parte da experiência do colaborador.

Há também uma dimensão estratégica nessa escolha.

Ex-colaboradores continuam falando sobre as empresas, relacionando-se com o mercado, influenciando outros profissionais e carregando consigo uma percepção sobre a cultura que vivenciaram. Em outras palavras, o contrato termina, mas o impacto da relação permanece.

Talvez, por isso, a verdadeira maturidade de uma organização não possa ser avaliada apenas pela forma como ela atrai, desenvolve e reconhece talentos.

Ela também precisa ser observada pela maneira como encerra ciclos.

No Capitalismo Consciente, pessoas não são apenas recursos necessários enquanto produzem resultados. São stakeholders de um ecossistema no qual relações, confiança e geração de valor estão profundamente conectadas.

É justamente nesse ponto que discurso e prática precisam se encontrar.

Afinal, se o propósito de uma empresa desaparece no momento em que uma pessoa deixa de ser útil à sua estratégia, talvez nunca tenha sido propósito.

Talvez tenha sido apenas discurso.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Andiara Martin e Débora Rodrigues
Sobre o autor

Andiara Martin e Débora Rodrigues

Sócias da MBRH Assessoria em RH, especialistas em Recolocação Profissional e Transição de Carreira, com mais de 25 anos de mercado, também atuam como Conselheiras da AC Minas, ACIC, ABRH e CRA, além de professoras de pós-gradução da PUC Minas

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas