Gargalos de navegação
A recente crise do estreito de Ormuz trouxe à luz um problema estratégico bem conhecido nos meios militares, mas pouco divulgado na população em geral, o de que existem alguns pontos chaves no mundo onde um fechamento, ainda que temporário, pode causar muita turbulência econômica, e no limite levar a recessões.
Embora a tecnologia tenha avançado muito nos últimos 250 anos, o transporte de grandes cargas continua a ser feito majoritariamente por meios navais. A questão central é que a geografia da Terra não mudou significativamente desde o fim da última glaciação, cerca de 10 mil anos atrás. E tal geografia baseada em placas tectônicas fez com que existam diversos pontos de estrangulamento para a navegação, ou gargalos.
Mais especificamente, os estreitamentos chaves são: canal de Suez; canal do Panamá; estreito de Magalhães; cabo da Boa Esperança; estreito de Gibraltar; estreito de Ormuz; estreito de Bab El-Mandeb; estreito de Malacca; estreito de Sunda, estreito de Lombok.
Desde a antiguidade, esses estreitamentos limitam a navegação e, no renascimento europeu, eles determinaram boa parte do processo das grandes navegações. Nos séculos 19 e 20, os canais de Suez e Panamá foram criados justamente para reduzir este nível de restrições.
Em 2026, tivemos problemas com o estreito de Ormuz que limita o escoamento da produção de petróleo, gás, fertilizante e alumínio da região do Golfo Pérsico. Este cenário foi predito por diversos analistas e jogos de guerra nas últimas décadas como sendo um grande risco de crises e guerras na região.
Além disso, desde 2023, os rebeldes Houthis estão ameaçando o estreito de Bab El Mandeb e provocando operações navais multinacionais para manter a navegação aberta.
Em 2021, o cargueiro Ever Given sofreu um acidente de navegação que fechou o Canal de Suez por seis dias. Boa parte do tráfego naval teve de ser desviado para o cabo da Boa Esperança, uma rota que toma em geral de 10 a 14 dias a mais.
Nos últimos anos, problemas climáticos têm reduzido o volume de água no Lago Gatún, que é chave para a operação do Canal do Panamá. Isto tem reduzido o volume de tráfego e aumentado o preço do trânsito.
O gargalo mais crítico, entretanto, são os três estreitos de Malacca, Sunda e Lombok, que são o acesso entre o Oceano Índico e o Mar do Sul da China. Ao observar estes problemas, fica clara a fragilidade do sistema global de trocas e da economia global que depende destas rotas de navegação abertas.
No futuro, problemas de guerra, terrorismo e instabilidade climática podem criar limitações logísticas e econômicas e inviabilizar estratégias que assumam um ambiente sempre favorável.
Isto implica em estratégias de diversificação de clientes e fornecedores para reduzir riscos e criar resiliência.
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