Plano Geral

Deus salve a Rainha

Produção é carregada de estrelas que revisita um clássico literário e eventos históricos impactantes
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A Rainha Margot, atualmente disponível no Prime Video, concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1994.
Só para lembrar: Clint Eastwood presidia o júri; Quentin Tarantino papou a Palma de Ouro por Pulp Fiction.

O projeto: adaptar um clássico literário de Dumas, montar uma produção milionária, abarrotar o filme de estrelas europeias a torto e a direito e apostar numa colossal campanha publicitária e no bom e velho nacionalismo francês. Como resultado, um bem-acabado símbolo de uma quase cilada em que se meteu o cinema francês que um dia se pretendeu industrial.
O episódio central do filme é o massacre da Noite de São Bartolomeu, em agosto de 1572, no qual milhares de protestantes foram assassinados em Paris pelos católicos da corte do rei Carlos IX.

Aqui, um casamento interconfessional de conveniência serviu para aplacar rusgas religiosas no intento de manter a França sob controle. Na orquestração, o casamento une, à revelia de ambos, a Rainha Margot, católica, ao protestante Henri de Navarre. O dito “bom rei” é boçal, insignificante, cheira a bode e a bebida.

Como é típico nas tragédias gregas, a família de Margot é um núcleo que, gradualmente, sucumbe ao caos por uma espécie de maldição que cada um carrega no próprio sangue.

Mas o que conta mesmo é a dimensão trágica, as bodas de sangue do cristianismo: por baixo das túnicas de carmim e púrpura reina, isso sim, a devassidão. São os bastidores sórdidos do poder que sustentaram as monarquias absolutistas nos primórdios dos Estados modernos.

Segundo o filme, qualquer par de pessoas que não estivesse se matando na corte francesa provavelmente estava tendo um caso. Margot mantém uma relação com Henri, duque de Guise, e se envolve com o conde de La Môle. Seu novo marido, o rei Henri, está tendo outro caso com a baronesa Charlotte de Sauve.

As maquinações e intrigas palacianas do filme também são da ordem do perverso. Por uma trama de Catarina de Médicis, os convidados protestantes são dizimados.

À época, Patrice Chéreau, o diretor, reconheceu ter forçado a barra nos paralelos com o Holocausto nazista e a carnificina na ex-Iugoslávia.

Poderia ser tudo cafona. No caso, o vento sopra a favor: a produção é grande, na medida do assunto, feita com o maior dos esmeros. Diga-se o mesmo, basicamente, do elenco: a magnífica e crudelíssima Virna Lisi, como Catarina de Médicis, é de cair o queixo, tal qual a rainha má da Branca de Neve.

Suntuosamente vestida, maquiada e sob as lentes do craque Philippe Rousselot, Isabelle Adjani, nossa Margot, aniquilada pelas forças do destino, levita, gélida, pela nave principal da catedral de Notre-Dame. A extensa cauda do vestido ocupa toda a igreja, o quadro, os meus olhos. É Margot, majestosa.

Deus salve a Rainha.

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Sobre o autor

Thiago Barcellos

Cineasta, crítico de cinema e mestre em artes. Pesquisa o cinema a partir das narrativas audiovisuais e de suas construções estéticas e afetivas, com foco na linguagem e na experiência do olhar.

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