Economia para Todos

Dilemas do trabalho por apps

Problema reside quando uma atividade deixa de ser transitória e se torne um destino profissional
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O trabalho por aplicativos deixou de ser uma atividade marginal no mercado de trabalho. Segundo o IBGE, cerca de 2 milhões de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais em 2025, das quais quase 1,2 milhão atuavam no transporte de passageiros. O número é grande o suficiente para que o fenômeno passe a ser visto como uma questão econômica.

Há ganhos importantes. As plataformas permitem que os trabalhadores entrem rapidamente em uma atividade remunerada e oferecem uma flexibilidade que o emprego tradicional muitas vezes não proporciona. Não por acaso, 26,8% dos trabalhadores de plataformas apontam a flexibilidade como principal motivo para atuar nesse modelo. É relativamente fácil transformar tempo disponível e um ativo já existente, como uma motocicleta, em renda.

O problema surge quando essa atividade deixa de ser transitória e passa a funcionar como destino profissional. Entre os motoristas de automóveis, por exemplo, os trabalhadores que atuam por aplicativos recebem praticamente a mesma renda mensal dos demais, mas trabalham mais horas. Em 2025, foram 45,9 horas semanais, contra 40,4 horas entre os não “plataformizados”. O resultado é uma remuneração por hora menor. Logo, o aplicativo pode elevar a renda mensal, mas isso não significa necessariamente que esteja elevando a eficiência econômica do trabalho.

A questão é ainda mais delicada quando olhamos para o capital humano. O IBGE mostra que trabalhadores de plataformas possuem, em média, menor escolaridade que os demais, mas identifica casos de pessoas com formação superior exercendo ocupações abaixo de sua qualificação. Isso pode representar uma subutilização de capital humano, isto é, um trabalhador cuja formação permitiria desempenhar uma atividade de maior valor agregado, mas acaba utilizando seu tempo e suas habilidades em uma ocupação de menor produtividade.

Há, também, a questão previdenciária. Apenas 34% dos trabalhadores “plataformizados” contribuíram para algum instituto de previdência em 2025, contra 63% entre os não “plataformizados”. A diferença não é apenas uma questão de proteção individual. Se uma parcela crescente da força de trabalho passa longos períodos fora do sistema contributivo, reduz-se a formação de direitos previdenciários hoje e aumenta-se a demanda futura por mecanismos de proteção financiados pelo Estado. Disso, temos um paradoxo. No curto prazo, a atividade por aplicativo amplia oportunidades de geração de renda, reduz fricções e absorve trabalhadores que poderiam estar desempregados. No longo prazo, porém, sua expansão pode revelar uma economia capaz de criar ocupação mais rapidamente do que consegue criar empregos de alta produtividade, remuneração e proteção social.

Resta uma pergunta: quanto da expansão das plataformas representa uma alocação mais eficiente da mão de obra e quanto representa a adaptação dos trabalhadores à escassez de alternativas melhores?

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Sobre o autor

Guilherme Almeida

Head de Renda Fixa na Suno. Sócio-fundador da Certifiquei, possui experiência como economista, atuando na gestão e elaboração de pesquisas e análises socioeconômicas. Mestre em Estatística pela UFMG.

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