Caminho esquecido
Há uma semana dizíamos, neste espaço, que a crise política impropriamente deslocada para o Supremo Tribunal Federal (STF) colocaria a nação brasileira à beira de abismo de insondável profundidade. Parece faltar pouco, muito pouco mesmo, para que o irremediável passo à frente seja dado. O que se passa é de amplo conhecimento, da mesma forma que os interesses em jogo podem ser claramente percebidos. Verificar quem ganha e quem perde – e independentemente do prejuízo geral que a todos alcança – pode ser a chave capaz de apontar tanto culpas quanto responsabilidades, tudo isso num cenário em que só parece não existir espaço para inocentes.
Independentemente do que ainda venha a acontecer, e deve acontecer, impressiona o silêncio dos personagens centrais neste espetáculo de horror. Estariam esperando o que exatamente? Seria acomodação e esquecimento, tão próprios desse ambiente em que persiste a ideia de que tudo pode cair no vazio porque, afinal, todos têm memória curtíssima? Espanta igualmente o imobilismo do presidente do STF, ministro Edson Fachin. Com o circo literalmente pegando fogo, como entender que ele tenha pedido prazo de 76 horas para esclarecimentos de um dos personagens que está no centro dos acontecimentos e da polêmica consequente? Parece ter faltado tanto comando quanto agilidade, o que só contribuiu para fazer a temperatura subir ainda mais.
Por elementar obrigação, por dever de ofício, ele deveria, e prontamente, ter chamado os envolvidos, seus colegas de toga, à fala e a responsabilidade, delimitando assim clara e definitivamente os espaços institucionais. Sim, para salvar a imagem ou a reputação do STF, para afastar perigos que nunca foram tão claros e também para colocar limites em quem finge, por conveniência, não os perceber. Tudo para trazer de volta o passado, para recordar outros momentos igualmente sombrios, para fazer saber que os limites da liberdade e da democracia podem ser conveniências muito particulares.
São os métodos de sempre, tão antigos quanto a própria República, a demonstrar que se não involuímos também não saímos do lugar. Sobretudo, e como também já foi dito aqui, são na realidade apenas e tão somente, frutos da procrastinação da reforma política, esquecida e deixada de lado como primeiro e mais importante passo depois da redemocratização, exatamente para que fossem mantidos abertos e bem abrigados os desvios que levaram o País ao ponto em que se encontra, no limite extremo da beira do abismo.
Lembrar este fato, enxergar a verdade, é também concluir que o caminho da sensatez permanece ao alcance da vista.
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