Economia do Propósito

Vulnerabilidade ainda é um desafio para as lideranças

Quando se trata do ser humano, o acolhimento, a compaixão e o respeito ao tempo do outro são fundamentais
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Outro dia, estava tomando café com um executivo em São Paulo e conversávamos sobre o cenário da saúde mental no Brasil. Comentei dados da Pesquisa de Saúde Mental 2026, realizada pela Aon em parceria com a Telus Health, segundo os quais oito em cada 10 profissionais da América Latina estão sob tensão ou em sofrimento mental. Então, ele me perguntou: “Layd, se um diretor estiver em sofrimento mental, como será visto ao falar sobre isso com os colegas e o conselho?”

Respondi: “Vamos usar a própria pesquisa que mencionei. Se a diretoria tem seis cadeiras e 80% dos trabalhadores apresentam algum grau de sofrimento, é razoável supor que a maioria dos diretores também esteja nessa estatística. A minoria é quem está de fora.”

Sempre existe alguém que inicia o processo e abre essa porta. Uma vez aberta, porém, a situação é bem diferente da observada antigamente. Hoje, estamos muito mais informados sobre o tema. Além disso, a revisão da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a abordar expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, amplia a responsabilidade das empresas na identificação, avaliação e prevenção desses riscos.

A pergunta daquele executivo abre um tópico muito relevante, que sempre abordo nos trabalhos de desenvolvimento de líderes: o silêncio. Segundo a mesma pesquisa, 72% dos trabalhadores na Colômbia temem que falar sobre saúde mental prejudique a carreira. No Brasil, 63% manifestam essa preocupação, enquanto 28% afirmam que não conseguiriam conversar abertamente com um gestor ou colega sobre o impacto do trabalho em sua saúde mental.

O problema não está apenas do lado de quem sofre. O estudo aponta que, na América Latina, quase metade dos gestores admite não saber o que fazer quando um funcionário enfrenta dificuldades relacionadas à saúde mental. É justamente nesse ponto que mais percebo despreparo nas lideranças: como lidar com o sofrimento alheio.

Quando evitamos falar sobre temas sensíveis e ter conversas difíceis, não preparamos nossa mente para enfrentar esse tipo de adversidade. O silêncio, além de ser um forte indicativo de baixo nível de segurança psicológica, revela uma grande inércia da cultura organizacional e das lideranças diante dos problemas.

Quando não há espaço para as pessoas falarem sobre suas preocupações ou fazerem perguntas, a segurança psicológica fica comprometida. Em situações extremas, esse ambiente pode contribuir para consequências trágicas.

Não há como fazer omelete sem quebrar os ovos. Se você não quer parecer ignorante, não pergunta. Se não quer parecer incompetente, esconde suas vulnerabilidades. Se não quer parecer inconveniente, não oferece ideias. A cultura do silêncio é perigosa para a inovação, o aprendizado, a solução de problemas e o desempenho.

Quando se trata do ser humano, independentemente do CPF ou do nível hierárquico, o acolhimento, a compaixão e o respeito ao tempo do outro são fundamentais para que tudo volte aos eixos.

Uma das questões mais importantes relacionadas à saúde mental é que o tempo de recuperação varia muito. Algumas pessoas conseguem se restabelecer em um período curto. Outras precisam de mais tempo, enquanto o mundo corporativo insiste em estabelecer regras para tudo.

Tamanho sofrimento nos convida a retornar aos princípios. Cuidar da saúde mental exige discutir esses princípios e, a partir deles, construir regras e práticas. Se a alta liderança não se abrir para isso, haverá mais sofrimento pela frente.

Não devemos esperar um caso de morte ou suicídio nos negócios ou na família para valorizar a vida. Podemos aprender com o mercado e com todas as informações que estão à nossa disposição.

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Sobre o autor

Laydyane G F

Fundadora e diretora-executiva do Instituto Gakid, organização especializada em consultoria e treinamentos que tem como propósito “Despertar CPF’s para humanizar CNPJ’s”. É também podcaster do Propósito na Prática, palestrante, trainer, mentora e consultora organizacional.

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