Hora de avançar

Crise no STF expõe limites de uma redemocratização marcada por acomodações e pelo adiamento de mudanças estruturais
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Hora de avançar
Crédito: Divulgação STF

Quando já não faltavam evidências de que o regime instalado em 1964 não era mais capaz de se manter de pé, admitiu-se, finalmente, que chegara a hora de tomar o rumo de uma tal abertura política. E, mesmo nas circunstâncias, tratou-se de deixar suficientemente claro que o processo deveria ser lento e gradual, salvando conveniências e o incômodo de estabelecer responsabilidades e culpas. Para resumir, acomodação em primeiro lugar, pouco mais que salvar aparências, tudo bem simbolizado na eleição indireta do primeiro civil a substituir um general na Presidência da República. Algo muito frágil para responder, de fato, às demandas da população brasileira, bem iludida com a euforia dominante e que, na perspectiva histórica e reflexiva, era apenas parte da ilusão muitíssimo bem criada e alimentada.

Tudo o que aconteceu na sequência resulta dessa construção muito mal alinhavada. O principal, ficando para depois, numa longa espera que já soma, pelo menos, quatro décadas.

As marcas da instabilidade não desapareceram, pelo contrário, prosseguem presentes e fortes, delas fazendo parte os acontecimentos que presentemente têm como palco o Supremo Tribunal Federal. E nada muito diferente dos procedimentos que marcam a República brasileira desde os seus primeiros momentos. A indignação que vai sendo derretida aos poucos, num processo escancarado de contornar a verdade, fugir da realidade para possibilitar acomodação. Sobretudo para escapar da responsabilização e simultaneamente impedir verdadeira mudança de curso.

Claramente esta tem sido a receita, muitíssimo bem ilustrada no fato de que o primeiro presidente civil, o dono do bastão de comando da redemocratização, tenha sido também um dos mais influentes líderes civis da ditadura. Mudar com esperteza antes de mais nada para garantir que o que verdadeiramente interessa continue no mesmo lugar. Há quem diga que, no momento presente, a corda possa ter sido esticada além de seu limite de resistência. Cabe considerar a possibilidade para entender que talvez não exista mais espaço para acomodação e esquecimento.

Punir delitos e, ainda assim com o risco de um roteiro que poderá ser seletivo, é muito pouco. Cabe mudar de rota, quem sabe começando pela reforma do Judiciário, pondo fim ao sistema viciado em que os ministros ficam cativos explícitos e assumidos de quem os indicou. Caberá entender que o ciclo da “redemocratização” está esgotado e não foi capaz de cumprir seus objetivos.

Para assim todos entenderem que os esforços têm que ser muito maiores e devem avançar para além das aparências ou da mera acomodação. A rigor, não menos que fazer da finada reforma política algo que a história possa registrar como a refundação da República. Menos será muito pouco.

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