Faltou até bom senso
Dando como certo que a força é o único argumento diante do qual não cabe contestação, os Estados Unidos ou, melhor dizendo, a gestão do presidente Donald Trump tem dado seguidos exemplos de arrogância. Tudo, aparentemente, no imperial entendimento de que os interesses do país devem prosseguir acima de tudo e de todos. Outra não pode ser a conclusão diante dos termos de documentos de outubro e de janeiro passados, só agora tornados públicos, contendo as exigências que, no entendimento de Washington, deveriam ser cumpridas como pré-requisito para possível abertura de negociações comerciais com o Brasil.
Recusado na íntegra, o que só agora veio à tona, o tal documento explicita exigências que vão muitíssimo além do Pix, a invenção brasileira transformada da noite para o dia em grave ameaça aos interesses das operadoras de cartões de credito ou às cobiçadas terras raras, abundantes em território brasileiro e vitais para a indústria norte-americana. A ousadia, ou falta de limites, foi muito além e o suficiente para incluir exclusividade à Boeing para fornecimento a empresas aéreas brasileiras ou parceria entre produtores de soja brasileiros e norte-americanos “para ajudar a estabilizar o mercado mundial” , seja lá o que isto possa significar. Mas sem esquecer também o estranhíssimo pedido da abertura de espaços para “dissidentes” nas eleições brasileiras.
Pedidos devolvidos com elementar alegação de que negociações desse porte não podem ser encaminhadas longe dos rígidos protocolos da diplomacia e menos ainda do elementar entendimento de que o governo brasileiro não teria como acolher pedidos que obrigatoriamente deveriam, se aceitos, passar pelos crivos tanto do Legislativo quanto do Judiciário. Negociações a sério devem ser tratadas em outro plano, demandam conversas e entendimentos exaustivos, atributos próprios da verdadeira diplomacia, algo que arrogância e prepotência não têm como substituir.
O recado foi dado e, pelo menos pelo que sugerem as aparências, o destempero foi silenciado, não provocando reações para além das tais sobretaxas que são hoje de amplo conhecimento. Cabe registrar de qualquer forma as proporções da tentativa de abuso praticada, assim desnudando por completo, seja a falta de limites, seja a inobservância dos mais elementares princípios da diplomacia, portanto do próprio convívio entre nações independentes.
Resta esperar, e tendo como certo que também os verdadeiros interesses dos Estados Unidos – para além da ação de lobbies presunçosos – foram agredidos que ainda exista espaço para, pelo menos , o retorno do bom senso.
Ouça a rádio de Minas