Legislação

Pedidos de recuperação judicial registram alta de 25% em Minas Gerais

A maioria das 394 empresas com pedidos aceitos no Estado é do agronegócio
Pedidos de recuperação judicial registram alta de 25% em Minas Gerais
Crédito: Adobe Stock

O número de empresas com pedido de recuperação judicial aceitos ao fim de 2025, somavam 394 em Minas Gerais. O montante é 25% maior que o do final do ano anterior (2024), quando 313 empresas no Estado buscavam reestruturar suas dívidas para evitar a falência. Os dados são do Relatório do Monitor RGF de Recuperação Judicial do quarto trimestre de 2025, realizado pela consultoria RGF, baseado em informações oficiais da Receita Federal.

Em comparação à média nacional, o aumento registrado em Minas foi maior. No Brasil, a alta na mesma base de comparação foi de 19,5%, passando de 4.568 empresas no quarto trimestre de 2024, para 5.680, em 2025.

O sócio e especialista em reestruturação da consultoria RGF, Rodrigo Gallegos, avalia que o aumento do número absoluto de companhias em recuperação judicial reflete, em grande medida, o impacto acumulado de um ciclo prolongado de custo financeiro elevado, margens comprimidas e dificuldade de alongamento de passivos. “O resultado foi um recorde de entradas em recuperação judicial no Brasil e um ambiente ainda mais desafiador para a obtenção de fôlego financeiro”, pontua.

Quando avaliado por setor, o de agropecuária se destaca no Estado pela proporção relativa. Das 3.772 empresas em atividade, 36 estão em recuperação judicial, índice relativo de 9,54%, sendo o maior entre todos os segmentos. “O dado reforça a vulnerabilidade do segmento, pressionado por adversidades climáticas, oscilações de preço e crédito restrito. E não se restringe a Minas. No Brasil, o setor também é o que possui o índice de recuperação judicial mais alto (13,5%)”, analisa Gallegos.

A advogada tributarista Polyany Cunha comenta que o cenário macroeconômico mais restritivo, com juros elevados, crédito mais caro e pressão sobre custos, faz do agronegócio o setor mais impactado já que opera com forte dependência de financiamento, ciclos longos de retorno e margens sensíveis a clima e commodities. “Não se trata de colapso produtivo, mas de ajuste financeiro após anos de expansão alavancada”, diz.

A indústria vem em seguida com índice relativo de 5,82%; o comércio, com 1,67%,;o setor de construção civil e energia, com 1,35%; e o de serviços, com 1,02%. Nesse último caso, embora tenha um índice de recuperação judicial abaixo da média dos outros setores, registrou a maior alta em número absoluto em relação ao relatório do trimestre imediatamente anterior, com o aumento de dez empresas em recuperação judicial.

Ainda conforme o relatório, em Minas Gerais o avanço não foi concentrado em um segmento específico, mas do fim de 2024 para 2025, a maior parte dos novos casos foram de holdings de instituições não-financeiras que são empresas criadas para a proteção patrimonial, planejamento sucessório e eficiência tributária. Das 394 empresas em recuperação judicial em Minas, 27 são dessa modalidade. No final de 2024, eram 20.

Polyany Cunha
Polyany Cunha atribui o aumento dos pedidos de recuperação judicial ao cenário macroeconômico | Foto: Divulgação / Arquivo pessoal

Sobre as holdings, a tributarista Polyany Cunha comenta que muitas passaram a concentrar garantias e dívidas do grupo, tornando-se o centro do risco financeiro. “Com a redução da liquidez, estruturas juridicamente bem desenhadas, mas sem geração própria de caixa, ficaram expostas. Soma-se a isso a mudança no uso da recuperação judicial, hoje vista como instrumento de reorganização e negociação de passivos, e não apenas como etapa pré-falimentar”, diz.

Selic, falta de crédito e dólar

A taxa Selic, em 15% ao ano; a postura mais conservadora do sistema financeiro e a volatilidade cambial foram apontados pelo relatório como fatores que dificultaram a vida financeira das empresas.

A alta taxa de juros pressionou o custo da dívida e o capital de giro. Segundo o especialista da RGF, esse efeito foi amplificado por fatores sazonais típicos do quarto trimestre, como pagamentos concentrados, ajuste de estoques e renegociações de passivos de curto prazo, o que acabou acontecendo em um ambiente de crédito ainda seletivo e defensivo.

O sistema financeiro manteve postura conservadora nos últimos meses do ano e a proximidade das eleições fez com que uma camada de incertezas fosse adicionada e os bancos priorizassem operações com garantias reais e reduzissem a exposição de novos créditos. “Esse cenário limitou o acesso a financiamento tanto para empresas fora de processos judiciais quanto para companhias já em recuperação judicial, ampliando a dificuldade de obtenção de ‘dinheiro novo’ a taxas competitivas”, detalha Gallegos.

No ambiente externo, a volatilidade cambial pressionou empresas com exposição a insumos importados e dívidas em moeda estrangeira. “A demanda internacional permaneceu instável, especialmente no mercado chinês, enquanto os impactos de medidas comerciais adotadas ao longo do ano continuaram comprimindo margens e restringindo a geração de caixa”, explica.

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