Movimento Minas 2032

Aço verde é trunfo do Brasil diante das barreiras comerciais

O País está em posição privilegiada na produção do aço de baixo carbono, com o uso de tecnologias e recursos que emitem significativamente menos CO2
Aço verde é trunfo do Brasil diante das barreiras comerciais
Produtos siderúrgicos com baixa emissão de carbono vêm ganhando espaço no mercado global | Foto: Reprodução Adobe Stock

A implementação de instrumentos de política comercial e ambiental que tornam o aço de maior emissão de carbono menos competitivo, como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (Cbam, na sigla em inglês), da União Europeia (UE), tende a abrir oportunidades para o Brasil e, especialmente para Minas Gerais, maior polo siderúrgico do País, fortalecer o desempenho internacional e até mesmo ampliar mercados consumidores.

A medida adotada pelo bloco econômico obriga os importadores a adquirirem certificados de carbono equivalentes às emissões de CO2 associadas à produção de determinados bens importados, incluindo o aço. O objetivo é proteger a economia e a política climática da região, mas contribui também para a descarbonização global da siderurgia.

Para não perder espaço no mercado, parceiros comerciais terão que entregar aço verde, ou seja, com baixa emissão de carbono, já que a preferência dos compradores deve se concentrar nesses produtos. Além disso, outros países precisarão adotar regras semelhantes ou poderão perder divisas e se tornar destinos de uma maior entrada de aço intensivo em carbono, que será redirecionado para mercados com exigências ambientais mais brandas.

O Cbam entrou em vigor em janeiro deste ano. No ano passado, a participação da União Europeia nas exportações brasileiras de aço cresceu 3,4 pontos percentuais em relação a 2024, para 10,5%, conforme dados do Instituto Aço Brasil. As vendas para o bloco econômico somaram 1,2 milhão de toneladas, com uma alta significativa de 69,8% no período.

Espelhando-se na medida da UE, vários países já estão considerando ou planejando mecanismos parecidos, indicando que, nos próximos anos, mais regras internacionais poderão surgir, com impacto sobre a demanda da siderurgia nacional. Em 2025, os embarques do País chegaram a 11 milhões de toneladas, com crescimento anual de 14,7%.

Imagem dividida mostrando à esquerda uma montanha de carvão e à direita uma pilha de sucata sendo carregada por uma garra industrial verde.
À esquerda, carvão vegetal utilizado pela Aperam South America; à direita, sucata metálica reciclada pela Gerdau | Fotos: Divulgação/Aperam BioEnergia/Gerdau

O que favorece o Brasil na transição para o aço de baixo carbono

Na corrida pelo fornecimento de um aço menos intensivo em carbono, a siderurgia brasileira apresenta vantagens relevantes. Enquanto globalmente o setor ainda depende amplamente do carvão mineral, no Brasil já são empregadas rotas tecnológicas e recursos que emitem significativamente menos CO2. Adicionalmente, as empresas estão se movimentando em outras frentes para reduzir as emissões.

Para produção de aço verde, um dos diferenciais do setor no País é o uso de carvão vegetal proveniente de florestas plantadas de eucalipto. A Aperam South America, por exemplo, utiliza 100% de carvão vegetal nos altos-fornos da usina no Vale do Aço, insumo produzido pela empresa de bioenergia do grupo Aperam, a Aperam BioEnergia.

A indústria nacional também utiliza fornos elétricos e sucata para produzir aço com menor pegada de carbono, como é o caso da Gerdau, que tem fornos elétricos em diversas operações e carrega o título de maior recicladora de sucata da América Latina. Aproximadamente 70% da produção do grupo têm a sucata como matéria-prima.

Mais um trunfo da siderurgia brasileira são os investimentos em energia limpa para a descarbonização do processo produtivo. Exemplo disso é a ArcelorMittal Brasil ter finalizado, no mês passado, aportes de R$ 5,8 bilhões em duas plantas solares e uma eólica.

Outro ponto para o setor no País é a busca por ganho de eficiência energética, assim como fez a Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) ao investir R$ 2,7 bilhões na modernização do alto-forno 3, responsável por cerca de 70% da produção de aço bruto na usina de Ipatinga. A reforma, concluída em 2023, permite a redução do consumo de coque.

As iniciativas de sustentabilidade da indústria do aço se conectam com o Movimento Minas 2032 – pela transformação global (MM2032), idealizado pelo Diário do Comércio, que propõe uma discussão sobre um modelo de produção duradouro, inclusivo e sustentável.

Vale pontuar que as ações citadas não estão isoladas. Embora sejam pilares de destaque, as companhias convergem esforços e tecnologias para diminuir a pegada de carbono e produzir um aço mais sustentável e competitivo. Isso inclui o uso de equipamentos com maior eficiência energética, energia limpa, carvão vegetal, sucata, fornos elétricos, além do aproveitamento de minério de ferro de alto teor e práticas de economia circular.

“O Brasil tem uma oportunidade muito grande de ser protagonista [em sustentabilidade no setor siderúrgico]”, destaca o diretor de Sustentabilidade da Usiminas, Roberto Maia.

Vista aérea panorâmica de uma grande planta industrial com longos galpões e infraestrutura de transporte, cercada por exuberantes montanhas verdes sob um céu azul e nublado.
Usina da Aperam South America no Vale do Aço | Foto: Elvira Nascimento
Fotografia aérea de um vasto complexo industrial com longos galpões metálicos e pátios de materiais, ladeado por uma densa vegetação e com uma cidade ao fundo sob um céu nublado.
Usina da Gerdau em Divinópolis | Foto: Divulgação/Gerdau

Vantagem ambiental ainda é pouco valorizada pelo mercado

Embora já ocupe posição privilegiada na produção de aço de baixo carbono em comparação a concorrentes, sobretudo asiáticos, e reúna condições favoráveis para avançar e se beneficiar diante de barreiras globais, o setor siderúrgico brasileiro ainda enfrenta o desafio de transformar essa vantagem ambiental em valor de mercado.

A lógica que predomina atualmente entre os consumidores de aço é direta: quando dois produtos apresentam preços equivalentes, o mais sustentável tende a ser escolhido. No entanto, diante de diferenças de custo, a opção mais barata prevalece na maior parte dos casos, mesmo que tenha gerado mais CO2, conforme executivos da siderurgia.

Na prática, se o mercado não estiver disposto a pagar o prêmio pelo aço verde, o esforço da indústria nacional perde sua razão de ser e novas iniciativas ficam travadas. A conta não bate, porque a descarbonização exige aportes vultosos e as empresas precisam de retorno. Mecanismos como o Cbam da União Europeia podem justamente mudar essa realidade.

“As indústrias precisam recuperar os investimentos. Se você investir para vender sob a mesma condição que vendia antes, o negócio não faz sentido”, ressalta o CEO da Aperam Stainless and Solutions Europe, Frederico Ayres Lima. Segundo ele, também é um desafio conscientizar o usuário na ponta para que opte por produtos com aço que tenham gerado menos CO2 na produção, por exemplo, um refrigerador ou um ar-condicionado.

Ainda que longe do ideal para o setor, já existem consumidores dispostos a pagar pelo aço menos intensivo em CO2. A título de exemplo, a própria Aperam South America vende o chamado Aço Verde Aperam, proveniente de um ciclo sustentável integrado em Minas Gerais, e a Gerdau lançou, recentemente, uma linha de produtos de aço com baixa emissão de carbono, produzidos a partir de sucata metálica e com o uso de fontes renováveis.

“O lançamento da linha responde a uma demanda de clientes, especialmente aqueles com metas de descarbonização e compromissos ambientais mais robustos, como os setores de construção civil e mobilidade”, afirma a gerente-geral de Meio Ambiente da Gerdau, Cenira Nunes. “Trata-se de uma estratégia prioritariamente voltada à fidelização de clientes que buscam esses diferenciais e reconhecem esse conjunto de benefícios”, salienta.

Vista aérea de um grande complexo industrial com extensos galpões e pátios de estocagem de materiais, cercado por colinas verdes e florestas sob um céu azul claro
Usina da ArcelorMittal Brasil em Juiz de Fora | Foto: Divulgação/ArcelorMittal
Vista aérea panorâmica de um grande complexo industrial, com diversos galpões, chaminés e infraestrutura de produção, em um vale rodeado por colinas verdes.
Complexo industrial da Usiminas em Ipatinga | Foto: Elvira Nascimento

Avanço mais acelerado esbarra em limitações

Apesar dos avanços e do potencial competitivo do setor siderúrgico brasileiro na disputa pelo mercado de aço verde, o caminho para a total descarbonização exige superar barreiras estruturais e econômicas. Além da falta de valorização do produto pelo consumidor, que desincentiva algumas iniciativas, há limitações tecnológicas e desafios estruturais.

Por exemplo, o Brasil lidera a produção global de carvão vegetal, mas o uso do insumo geralmente ocorre em fornos de menor escala, o que limita a utilização por parte de algumas usinas. As regras e os processos de licenciamento para o plantio de biomassa são considerados engessados e, apesar da imensa extensão territorial do País, existem limites físicos que impõem dificuldades de oferta e de viabilidade logística para as siderúrgicas.

A disponibilidade de sucata é escassa em relação a países como os Estados Unidos. Embora a matriz elétrica do País seja uma das mais limpas do mundo, a oferta de energia renovável fica aquém do necessário. A parcela de aço produzido via fornos elétricos é pequena.

Apontado como solução de longo prazo, o hidrogênio verde ainda não é viável. A tecnologia disruptiva esbarra em uma série de fatores, como maturidade técnica, disponibilidade, preço acessível, falta de infraestrutura, troca de equipamentos para reatores de redução direta (DRI, da sigla em inglês) e grandes investimentos. Alternativa intermediária, o gás natural enfrenta restrições diante de custos elevados.

“Da mesma forma que tem potenciais para ser [o Brasil líder na corrida da descarbonização do setor siderúrgico], ainda existem entraves nesse processo que precisam ser superados”, enfatiza o gerente-geral de Sustentabilidade da ArcelorMittal, Guilherme Abreu.

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