Movimento Minas 2032

Educação para a felicidade é estratégica para as empresas

Benedito Nunes entende que a retomada de movimentos que legitimem a busca pela felicidade genuína é fundamental
Educação para a felicidade é estratégica para as empresas
Foto: Arquivo Pessoal / Benedito Nunes

Pensar que nossos adolescentes e jovens estão predominantemente tristes acende um alerta para a saúde mental de forma geral. Dados recentes da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da PeNSe, divulgada em março deste ano, mostram que três em cada dez adolescentes entre 13 e 17 anos se sentem tristes com frequência, enquanto uma proporção semelhante já pensou em se machucar. Mais grave ainda, 18,5% afirmam que a vida não vale a pena ser vivida.

Os números revelam um mal-estar coletivo, silencioso e crescente, que desafia famílias, escolas, governos e toda a sociedade. Se a saúde, como define a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, então é preciso reconhecer que ainda estamos distantes desse ideal, alertam os especialistas.

O Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, surge como uma oportunidade para inserir a pauta da cultura da felicidade como parte estratégica das mudanças necessárias tanto nos ambientes corporativos quanto na sociedade como um todo.

Diante desse cenário, ganha força o conceito de educação para a felicidade — uma abordagem que integra desenvolvimento emocional, sentido de vida, relações saudáveis e construção de propósito. O coordenador do Instituto Movimento pela Felicidade e participante do Movimento Minas 2032 – Pela Transformação Global, Benedito Nunes, defende a retomada de movimentos que legitimem a busca pela felicidade genuína. E aponta caminhos simples e viáveis para todos. Confira na entrevista.

Que futuro se desenha se uma geração perde o sentido?

Sem sentido, o futuro se torna incerto — e isso implica perdas econômicas, sociais e culturais. Por isso, o maior desafio do presente é reconstruir vínculos, propósito e esperança, em um verdadeiro movimento pela felicidade.

Estamos criando uma geração de pessoas tristes? Por quê?

Talvez não estejamos criando apenas uma geração triste, mas uma geração atravessada por um vazio de sentido. Em um mundo acelerado, onde o desempenho substitui o encontro, o indivíduo se distancia de si e do outro. Dados do Movimento pela Felicidade apontam a queda do bem-estar subjetivo e o aumento da solidão como sinais desse tempo. A tristeza, portanto, não é falha — nem mesmo o cerne do problema —, mas a linguagem de uma vida que pede reconexão.

O que significa adoecer em um tempo que exige felicidade constante?

Adoecer pode ser, paradoxalmente, uma forma de expressão. O adoecimento é uma mensagem de algo dentro ou fora de nós não anda bem. É um sinal de descompasso entre o indivíduo e o mundo que o cerca. Por isso, é essencial olhar para as causas estruturais desse sofrimento. Limites, uso saudável da tecnologia e educação voltada ao direito à felicidade genuína, aquela vivida nas pequenas experiências do dia a dia, são caminhos eficazes para a construção e manutenção da saúde mental.

Pode a escola ou treinamentos ensinar aquilo que não se mede?

Nem a escola, tampouco as formações corporativas, podem se limitar ao que é mensurável. Educar também é formar sensibilidades, ampliar repertórios emocionais e ensinar a conviver. Isso passa, invariavelmente, pelo despertar da consciência sobre a responsabilidade de cada indivíduo com a felicidade própria e coletiva. A felicidade se constrói nas relações, no reconhecimento do outro e na capacidade de partilhar experiências. E, apenas para tangibilizar o que estamos falando, podemos sim medir as experiências emocionais das pessoas, inclusive a felicidade.

Como fomentar a cultura do ser feliz como valor menos instagramável e focado na experiência que transforma?

Para alcançar uma felicidade real — para além dos cliques e das imagens — é preciso garantir saúde física e mental, condições básicas de sobrevivência e desenvolvimento de consciência. Isso passa por educação, escuta e construção de sentido.

Os desafios, no entanto, permanecem evidentes. Menos da metade dos estudantes brasileiros tem acesso a apoio psicológico nas escolas, e apenas um terço conta com profissionais de saúde mental no ambiente escolar. Ao mesmo tempo, muitos jovens relatam solidão, incompreensão familiar e até situações de violência dentro de casa. Ainda existem empresas que desconsideram a felicidade como ativo estratégico e faltam culturas efetivas nas corporações. Por isso, falar de felicidade, nesse contexto, é falar de desenvolvimento econômico, estrutura social, políticas públicas e de uma cultura do cuidado que ainda precisa ser fortalecida. E, mais, há uma grande frustração no mercado corporativo ou nas instituições, inclusive as escolas, com ações isoladas (como workshops de ioga ou frutas na sexta). O diferencial agora é atuar na raiz do problema, com alternativas que analisam a carga cognitiva, o design do trabalho e os riscos psicossociais. O foco está em reduzir o “ruído” organizacional, como reuniões excessivas, contexto de trabalho desorganizado e falta de autonomia (inclusive nas escolas), lembrando que a principal alavanca do bem-estar são os gestores. Que precisam aprender a ter conversas difíceis sobre carga de trabalho, sobre limites e sobre empatia, por exemplo.

O projeto Diálogos pela Felicidade pode ser um caminho para empresas e instituições?

Sim, criamos o Movimento pela Felicidade que criou o projeto “Diálogos com a Felicidade”, que promove espaços de escuta e reflexão, reunindo especialistas e sociedade em torno de caminhos para uma vida mais equilibrada. A proposta é formar e transformar sujeitos para que exerçam o direito à felicidade e se tornem multiplicadores desse valor. É importante perceber um novo movimento na sociedade, onde profissionais inovadores estão mudando o “framing” da conversa. Em vez de oferecerem experiências de felicidade de forma isolada (que pode soar subjetiva), oferecem “performance humana” ou “alta performance sustentável”, que significa conexão com o propósito (que também chamamos de core business), onde os ambientes de alta pressão, pedem não apenas uma abordagem terapêutica tradicional mas sistemas de suporte à performance, com foco nas redes neurais e no território mental, na recuperação de energia e na resiliência, em uma nova tendência, que é falar sobre “saúde do cérebro” (brain health), ajudando profissionais a gerenciarem a carga cognitiva e a manterem a tomada de decisão em alto nível sob pressão. Os encontros são mensais e a programação pode ser acessada no site Movimento pela Felicidade. Participe!

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas