Caminhos sustentáveis

A floresta que rega a lavoura

Relação entre agro e o meio ambiente precisa ser mais bem estudada e compreendida no País
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Uma das características da radicalização política do Brasil é a criação de falsas dicotomias para suportar visões ideologizadas da realidade. Uma das mais perigosas dessas dicotomias acontece entre o agro e o meio ambiente. Não faltam políticos e líderes defendendo que a defesa do meio ambiente é uma afronta direta ao agronegócio e que defender o agronegócio é ser favorável à destruição ambiental.

Um estudo publicado no final de 2024 pela Universidade Federal de Minas Gerais, produzido em parceria com a Rainforest Foundation Norway, mediu quanto o desmatamento custou à própria agricultura amazônica. Entre 2006 e 2019, as perdas somaram US$ 760 milhões na produção de soja e US$ 270 milhões na de milho. As áreas que perderam mais de 80% da cobertura florestal tiveram atrasos de até 76 dias na estação chuvosa, perda de 40% do volume de chuvas e temperaturas máximas 2,5°C maiores. A conclusão é que o risco climático da produção é quatro vezes maior nas áreas desmatadas.

A explicação é simples e bastante conhecida: a floresta funciona como uma bomba de umidade, pois as árvores retiram água do subsolo e a devolvem à atmosfera pela evapotranspiração, alimentando as massas de ar que geram as chuvas e o efeito se estende por quase todo o território brasileiro. Derrubar a floresta para plantar equivale a desmontar o sistema de irrigação que torna a lavoura possível. O ganho do desmatamento é imediato, privado e visível, mas o custo que se imagina ser coletivo e difuso está influenciando diretamente o bolso dos produtores.

O agro vive uma situação econômica muito complicada, com 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56% sobre 2024, e 474 pedidos apenas no primeiro trimestre de 2026, segundo a Serasa Experian. Insumos caros, juros restritivos e preços desfavoráveis dos produtos finais ajudam a compor um contexto preocupante. No Alto Paranaíba mineiro, São Gotardo, Ibiá, Serra do Salitre e Rio Paranaíba decretaram emergência econômica no setor agropecuário, e em Ibiá o alho custa R$ 16,30 o quilo para ser produzido enquanto o produtor recebe cerca de R$ 11, ou seja, o produtor não tem margem. Se a água não chega pela chuva, precisa chegar por irrigação, mas irrigação custa caro e depende de uma disponibilidade hídrica do subsolo que só diminui. Se o solo se empobrece, mais aditivo químico se torna necessário e isso custa caro.

Segundo predições de estudiosos, a restauração de 55 mil quilômetros quadrados no Pará anteciparia as chuvas em cinco dias na média e em até dezenove nas áreas mais críticas, com 152 milímetros a mais de precipitação por ano. A floresta em pé é infraestrutura produtiva, com retorno mensurável, mas para os políticos vale mais a pena fugir da verdade e alimentar uma rivalidade que prejudica todo mundo.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Paulo Guerra

Diretor de Programas FDC Gestão Pública


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