Diversidade em Foco

Se o PL da Misoginia passar, vou perder o meu emprego!

Entenda o que está por trás desse discurso e por que devemos combatê- lo

Nas últimas semanas temos acompanhado um debate público fervoroso em torno do PL da misoginia, um projeto que é concebido para coibir a violência descontrolada que assistimos contra as mulheres, mas que ganha interpretações equivocadas e perigosas. Vamos entender aqui o que está por trás dessa proposta e por que ela é importante.

Vivemos hoje no Brasil uma onda de violência contra as mulheres. Dados revelam que quatro mulheres são assassinadas por dia e a cada seis minutos acontece um estupro. Diante desse quadro, a ONU decretou pandemia nacional e o Governo Federal criou o Pacto “Todos por Todas” com o objetivo de unir esforços entre executivo, legislativo e judiciário na proposição de ações conjuntas.

Ou seja, o momento é sério e precisa do engajamento de toda a sociedade. Mas o que está por trás de tal aumento? A análise de fenômenos sociais é complexa e não se limita a um único aspecto, contudo, uma das fontes desse agravamento é o que hoje damos o nome de Machosfera: um conjunto de comunidades virtuais que rejeitam as conquistas femininas, exaltam a masculinidade hegemônica e destilam o ódio contra as mulheres, conhecido como misoginia.

A Machosfera transforma ressentimentos individuais em ideologia e mercado e lucra! Isso mesmo,
existe muito dinheiro por trás desse movimento. Pesquisa da NetLab identificou 137 canais no YouTube com conteúdo misógino. Juntos, eles somam 3,9 bilhões de visualizações, 105 mil vídeos publicados e, em média, 152 mil inscritos. O ódio às mulheres gera lucro nas redes e morte fora delas.


É importante entender que a linguagem não apenas descreve a realidade, ela a constitui, sendo assim, nomear um problema é romper o pacto de silêncio que o protege. Ou seja, é de suma importância que a misoginia passe a ser tipificada e nomeada. É preciso que toda a sociedade se una em prol de ações que barrem o crescimento do incentivo ao ódio contra as mulheres. E, embora a lei sozinha não resolva o problema, ela é um passo fundamental para coibir essas ações e dar luz ao problema.

Mas se a lei passar as empresas não vão querer mais contratar mulheres! Esse é outro argumento falacioso com que precisamos ter cuidado. Primeiro, porque não podemos desconsiderar ações de combate a um problema social e coletivo justificando questões de ordem pessoal e ancoradas em uma perspectiva neo-liberal.

Segundo, porque para que mulheres sejam contratadas e permaneçam em seus empregos, elas precisam estar vivas. Terceiro porque o que precisamos fazer é criar uma cultura de ,respeito às mulheres também dentro das empresas e isso se alcança com letramento, conversa, mudança de cultura, conscientização.

Não dá para justificar que mulheres continuem morrendo e sendo agredidas diariamente só porque precisam se manter empregadas.

É preciso que nos mantenhamos atentas e fortes e que aprendamos a separar o
joio do trigo pois senão caímos em armadilhas discursivas. A violência contra as
mulheres começa muito antes do feminicídio e ela acontece também nos ambientes
corporativos. É preciso combater o ódio contra as mulheres no discurso e nos diferentes
espaços em que ele se dá e não evita-lo por medo de coerção.

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