Diversidade em Foco

O número de mulheres eleitas pode ser considerado uma vitória? Entenda a diferença entre representação e representatividade

O recorde de mulheres eleitas no Congresso levanta a questão sobre a verdadeira representatividade e o risco de discursos antifeministas retrocederem direitos
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No último domingo (5), o Brasil foi às urnas e teve um recorde histórico de mulheres eleitas. A Câmara terá 108 deputadas a partir de 2027 e o Senado elegeu 12 mulheres numa única eleição. Isso, por si só, deveria ser motivo de comemoração e orgulho, visto que há anos as mulheres buscam um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas, mas não é bem assim. E é isso que vou tentar explicar para você, leitor, na coluna desta semana.

Para começar, precisamos entender a diferença entre os conceitos de representação e representatividade na política. A representação é um conceito estrutural e formal e quer dizer quem, por meio do voto, pode representar os seus eleitores. A representação pode nos levar à falsa impressão de que, numericamente, temos mais mulheres para nos representar no legislativo. Por isso, é necessário entrecruzar essa ideia com a de representatividade, que é um conceito mais qualitativo e se refere ao grau em que quem representa se assemelha ou dá voz às características, experiências e necessidades do grupo em questão. E é aí que mora o problema.

Embora tenhamos mais mulheres eleitas, temos um contingente dessas que sustentam um discurso antifeminista e que busca retroceder nos direitos conquistados por nós até os dias de hoje: aproximadamente 25% no Senado e 67% na Câmara dos Deputados.

E vejam que o problema aqui não é elas serem contra o feminismo em si, mas sim, o que está por trás desse discurso. Se uma mulher rejeita as conquistas femininas, ela oferece ao grupo contrário aos direitos adquiridos pelas mulheres ao longo da história — especialmente aos homens não aliados à causa —, a ideia de que os avanços conquistados não representam necessariamente todas as mulheres e que, então, esses são direitos questionáveis e passíveis de retrocesso. E isso é uma armadilha bastante perigosa.

Como escrito por Camila Galetti para o site do Intercept Brasil, o posicionamento antifeminista não tira os direitos das mulheres de uma vez. Ele age por desgaste. Primeiro, o conceito vira “ideologia”. Depois, a lei vira “exagero”. Por fim, a política pública vira “privilégio” e, ao final, nessa lógica, feministas lutam por privilégios. E o mais curioso disso tudo é que elas não se dão conta de que foram eleitas e estão ali devido a um direito conquistado pelo feminismo e que, portanto, estão dando um tiro no próprio pé.

Esse cenário que assistimos agora na política reforça uma questão que venho afirmando nas minhas palestras, treinamentos empresariais e aulas: não é porque é mulher que nasce com letramento de gênero, letramento racial e consciência de classe. E, sendo assim, torna-se urgente que eduquemos e sensibilizemos mulheres. Pois não podemos permitir que direitos como o voto, a ampliação de direitos civis e reprodutivos, o acesso à educação, a inserção no mercado de trabalho, a tipificação de violências que antes eram naturalizadas, retrocedam.

Portanto, a resposta à pergunta do título do artigo é NÃO. O número de mulheres que vão ocupar as cadeiras do Congresso Nacional não é, por si só, motivo de comemoração, pois nem todas nos representam e, sendo assim, é preciso que estejamos atentas, pois direitos não são permanentes; eles exigem manutenção, vigilância e participação e, mais do que nunca, precisamos nos posicionar e agir em prol de um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas, até mesmo para essas mulheres que se posicionam contrárias ao feminismo.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Letícia Lins

Doutora e Mestra em Comunicação, Pós-Graduada em Marketing e Publicitária de formação. Fundadora da Letícia Lins Consultoria de Diversidade e Inclusão. Coordenadora dos Cursos de Diversidade e Inclusão do IEC da PUC Minas. Atua como professora na Puc Minas e no Sebrae. Autora do livro: “Deixamos o não em casa, mas saímos com o nunca. Publicidade, Experiência, Públicos e Feminismos nas Redes Digitais” e organizadora do livro: “Comunicação, diversidade e inclusão: diálogo entre academia e mercado”.


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