A angústia ambiental agora tem escala: solastalgia
Todos os dias agradeço por ter tido, na escola de gestão, uma base sólida no ciclo PDCA (sigla para Plan-Do-Check-Act, em português, Planejar, Fazer, Checar e Agir), difundido por W. Edwards Deming. E foi nesse universo da gestão da qualidade que aprendi uma máxima que me acompanha até hoje: não se gerencia o que não se mede.
Por isso fico particularmente feliz ao ver a economia do propósito ganhando espaço no mundo da gestão. Quando soube do indicador que apresento hoje, algo me disse que estamos caminhando na direção certa. Pela primeira vez, o Brasil tem uma escala validada em português para medir o sofrimento ligado à degradação ambiental. Com vocês, a solastalgia.
Solastalgia é o nome dado ao desconforto de ver o lugar onde se vive mudar para pior sem sair dele. O termo foi criado pelo filósofo australiano Glenn Albrecht. Diferentemente da nostalgia, que é a saudade de um lugar distante, a solastalgia descreve a angústia de quem permanece em casa e percebe o próprio entorno se degradar, seja por secas, queimadas, desmatamento ou enchentes.
A escala brasileira, chamada BSS-Br (sigla em inglês para Brief Solastalgia Scale, ou Escala Breve de Solastalgia, em sua versão brasileira), é resultado de um estudo de pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, publicado em 2026 na revista Environmental Psychology Research, da British Psychological Society. A pesquisa foi financiada pela Natura, que também assina o trabalho como coautora e detém os dados do estudo. Os autores adaptaram um instrumento australiano de cinco itens e o aplicaram on-line a 1.752 adultos das 27 unidades da Federação. A ferramenta passou nos testes estatísticos esperados de um bom instrumento de medida e funcionou de modo comparável entre faixas etárias, regiões e níveis de escolaridade.
Os pesquisadores também compararam a escala com questionários de ansiedade, depressão e bem-estar. Pessoas com mais solastalgia tenderam a relatar mais sintomas de ansiedade e depressão e menos bem-estar, mas as associações foram de pequenas a moderadas. Os autores ressaltam que solastalgia não é sinônimo desses transtornos: trata-se de uma resposta emocional específica às mudanças no ambiente.
Alguns números do estudo circularam com destaque, como o de que 44,75% dos participantes atingiram o ponto de corte para ansiedade moderada ou mais intensa. Porém, é preciso cuidado ao ler esse dado. A amostra não foi sorteada: quem respondeu o fez voluntariamente pela internet, e os próprios autores reconhecem a sobrerrepresentação de pessoas mais escolarizadas e conectadas. Além disso, cerca de 96% dos participantes eram mulheres. Por isso, os percentuais descrevem os participantes, não a população brasileira. Como os dados foram coletados em um único momento, o estudo também não permite afirmar que a degradação ambiental cause esse sofrimento.
Vejo que o saldo é uma ferramenta útil, que permite medir algo que antes só se descrevia. Os próximos passos apontados pelos autores incluem amostras representativas e acompanhamento das mesmas pessoas ao longo do tempo. Só então será possível saber quanto essa angústia está de fato presente no País e como ela evolui. Afinal, para gerenciar, primeiro é preciso medir bem.
Referência: Marques, L. M. et al. (2026). Validation of the Brief Solastalgia Scale (BSS-Br). Environmental Psychology Research, 1, e70011.
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