Viver em Voz Alta

O novo livro de Wander Melo Miranda

Obra traz uma nova perspectiva sobre Graciliano Ramos
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Um dos críticos literários mais respeitados do País, professor emérito da UFMG e membro da Academia Mineira de Letras, onde ocupa a cadeira de número 7, Wander Melo Miranda lançou, recentemente, o ótimo “Graciliano Ramos – vida e obra” (Companhia das Letras, 394 páginas), livro em que refaz o percurso biográfico do escritor alagoano ao mesmo tempo em que reflete sobre sua bibliografia, o modo como foi recebida pela crítica ao longo do tempo e a sua posição na história da literatura brasileira.

Logo nas primeiras páginas, Wander expõe o desafio a que se propôs: “Nossa tarefa aspira compreender uma vida luminosa, não isenta de contradições, é claro, mas exemplar no sentido de mostrar até onde a dignidade humana pode chegar e se impor em tempos sombrios da história brasileira, que teimam em se repetir com uma constância que não chega mais a nos surpreender”.
A dimensão ética do legado do velho Graça também é destacada quando Wander fala sobre a defesa firme, constante e serena que ele faz de “todos os infelizes que povoam a terra”, sublinhando, igualmente, como o autor de “Vidas Secas” foi capaz de fazê-la sem cair na “injúria panfletária e no lugar-comum das posições maniqueístas”, nem na “falácia da neutralidade que o escritor tanto abominava”.

Em um dos capítulos mais interessantes do livro, “Nosso pequenino fascismo tupinambá”, Wander se concentra sobre a perseguição a Graciliano e a sua prisão, em 3 de março de 1936. Desse período, que vai até 13 de janeiro de 1937, resultará uma das obras-primas do autor, “Memórias do Cárcere”, publicada alguns meses após a sua morte, em 1953. As relações entre Literatura e Política ganham boas reflexões, que se estendem por pelo menos mais quatro capítulos.

Sobre o regime fascista do Estado Novo implantado por Vargas em 1937, Wander recupera trechos fundamentais da obra de Graciliano, quando ele escreve que o ‘decênio de arrocho’ vivido sob o regime getulista, se não instituiu uma ‘censura prévia’ às obras de arte, foi mais perverso, ‘suprimiu o desejo’ de se entregar ao ofício de escrever. O professor ainda recorda a famosa frase do autor alagoano, que resume tão bem o modo como existiu no mundo: “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos extremos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Rogério Faria Tavares

Jornalista. Doutor em literatura. Presidente emérito da Academia Mineira de Letras.


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