Andar em círculos
Cumprida a primeira etapa do processo eleitoral e tendo em conta que a escolha do futuro presidente da República ficou para uma segunda votação, imagina-se – no plano do ideal – que as próximas semanas serão dedicadas à apresentação e discussão dos respectivos programas de governo. Um debate focado e preciso, com propostas e alternativas que permitirão aos brasileiros fazer sua escolha. No mundo real deverá ser bem diferente, tantas são as evidências de que escolhas não são ditadas exatamente pela razão e, consequentemente, a conclusão de que continuar explorando a emoção poderá ser o caminho mais fácil. Para assim prosseguir na trilha dos ataques rasteiros sem medidas e sem consequências, com vantagem exclusivamente para quem melhor souber explorá-la.
O mesmo caminho das promessas fáceis e dos anúncios bombásticos, das soluções apresentadas como ao alcance das mãos e de tudo aquilo que não acontece. Sempre tangenciando temas mais sensíveis, como segurança pública, perpetuados e agravados ao extremo e sem mínimos sinais de avanços capazes de produzir tranquilidade. Tudo isso num grande teatro cuja peça e respectivo enredo se repetem enfadonhamente de tempos em tempos, quem sabe apenas para ajudar a explicar porque os níveis de abstenção prossigam em ascensão. Onde afinal estariam os mais de 33 milhões de brasileiros aptos ao exercício do voto, da participação, da escolha e da decisão, mas que preferiram ficar em casa no domingo?
Cabe refletir, é impositivo procurar respostas que ajudem a compreender como e porque o sistema político brasileiro se perdeu nos sonhos embalados pelo fim da ditadura e não soube levar adiante a empreitada da redemocratização. Para assim, agora, resistir à tentação das mudanças cosméticas ou de explícita conveniência e entender que existe toda uma construção, ou reconstrução, por ser feita. Gente capaz de enxergar que a situação chegou ao ponto da exaustão, sobretudo porque a reforma política, inconveniente na perspectiva dos interesses acomodados e dominantes, não poderia ter sido esquecida como de fato foi.
Governar, seguindo a bússola dos resultados e da melhor conveniência, implica no entendimento de que é preciso fazer muito mais que, por exemplo, corrigir desvios ou mau comportamento em quaisquer dos planos da administração pública. Compreensão elementar e sem a qual prosseguiremos andando em círculos e, pior, afundando cada vez mais, sem rumo e sem a certeza de um destino melhor, aquele mesmo que candidatos em campanha continuam garantindo estar ao alcance das mãos.
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