Caminhos tortuosos
O País esteve ao longo dos últimos anos e por diversos momentos à beira do precipício, no limite de crise institucional de insondáveis consequências. Essencialmente tudo por conta de deformações no campo político, com reflexos no Legislativo e igualmente no Executivo, gerando desequilíbrio que, a despeito das muitas críticas e ataques duvidosos que tem enfrentado, o Judiciário até o presente foi efetiva barreira.
Nesse rol ganham destaque, e por óbvio, as respostas aos acontecimentos que culminaram, em janeiro de 2023, com ataques e depredação às sedes dos poderes federais em Brasília. E culminando com processos devida e reconhecidamente suportados pelas disposições legais dos quais resultaram condenações que, além de inéditas, foram exemplares, pondo fim dessa forma ao ciclo de impunidade que ajuda a explicar expedientes semelhantes no passado, especialmente em 1964.
Apesar do desfecho e das provas, muitas delas produzidas pelos próprios acusados, passado tão pouco tempo tenta-se vender a ideia de que não houve nada de excepcional, expediente que de início chegou ao ponto de tentar transferir a culpa para o governo recém-empossado, que, diante dos acontecimentos, não teria reagido como devido. Houve também quem enxergasse nos manifestantes, a maioria não mais que massa de manobra ou marionetes, apenas fiéis compungidos à procura de um lugar para suas orações. Diante de fatos resta pura e simplesmente negar, ao mesmo tempo que buscar atalhos para tentar alterar a realidade.
Raciocinando nessa direção, é bem possível compreender também a natureza de movimentos mais recentes e ainda em curso com explícitas tentativas de desacreditar o Judiciário, ao mesmo tempo em que os ministros integrantes do Supremo Tribunal Federal podem estar sendo alvos de uma campanha de descrédito sem precedentes. Tudo para chegar ao ponto em que, desacreditados e desmoralizados, seriam apontados como incapazes de julgar e menos ainda condenar os responsáveis pelas tentativas de impedir que a transição democrática fosse levada a bom termo e respondendo à escolha dos eleitores. Ou a senha para o contragolpe.
Os deslizes anotados, que seriam efetivamente graves se devidamente comprovados, devem ser apurados e se espera que levem às reações desejáveis, obrigatórias, num processo de depuração e reafirmação de valores que também não podem ser apagados. Nada disso, porém, deve acabar por se transformar em pretexto para modificar a história, esquecer o passado recente e varrer para debaixo do tapete tudo aquilo que não pode e não deve ser esquecido. Para que, afinal, todos saibam que não existem mais espaços no País para aventuras golpistas, para tentar ignorar o que as urnas nos contam, para a impunidade afinal.
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