Um triste espetáculo
Definitivamente coisas muito esquisitas andam acontecendo em Brasília, onde a liquidação de um banco sobre o qual, e minimamente, pairam enormes controvérsias vai se transformando em novela de enredo conturbado e, assim, final imprevisível. Sobretudo porque decisões que deveriam ser fundamentadas exclusivamente em rígida fiscalização e somente parâmetros técnicos, funções por suposto abraçadas pelo Banco Central, aparentemente estariam sendo contaminadas por injunções políticas que soam absolutamente impertinentes, além de duvidosas.
Nada a estranhar, tendo em conta denúncia da existência de rombo que pode passar dos R$ 10 bilhões e que culminaram com tentativa de transferência de ativos podres a um banco estatal. Nada a estranhar também diante das evidências de que o tal banco prosperou e permaneceu impune durante longo tempo por conta da eficácia da rede de proteção que teria montado diligentemente, envolvendo e contando com simpatias mal disfarçadas de gente que estaria no primeiro plano da vida política nacional. Tudo numa escala em que, conforme comentários ouvidos em todos os cantos de Brasília, uma devassa teria o poder de abalar a República.
Nesse ambiente, na corda bamba em que alguns caciques conhecidos estariam caminhando, não causou surpresa que até o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha sido envolvido para, ao lado do Tribunal de Contas da União (TCU), protagonizar cenas de um script igualmente duvidoso, fazendo assim crescer especulações também indesejadas porque podem afetar – se já não afetaram – a estabilidade do mercado financeiro, comprometendo a própria autonomia do Banco Central.
Nada que tenha tido até agora explicação razoável e de mínima consistência, o que só faz crescer as especulações e, com elas, movimentos indesejáveis, tudo num processo de contaminação que fazem parecer inocentes as observações do deputado Tiririca sobre a cena política em Brasília. Sim, aquele mesmo parlamentar neófito que chegou à Câmara dos Deputados e se mostrou escandalizado com o que viu, porém sentindo-se aliviado por imaginar que a cena pelo menos não teria como piorar.
Só cabe esperar que aqueles que têm o poder de decidir e, assim, melhorar o enredo desse triste espetáculo se façam perceber. Para apagar suspeitas improcedentes se elas existirem, para impedir que o esquecimento e a impunidade acabem sendo algo como um galardão para os que possam estar atolados no pântano da corrupção. Para resguardar o Banco Central ou, antes, valores que nos são essenciais.
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