Um vazio arriscado
O tempo vai passando, a votação de outubro se aproxima e negociações em torno de candidaturas e chapas se afunilam. São articulações próprias do processo político, destinadas a construir sustentação para candidaturas majoritárias, mas nas quais ainda é possível perceber também inquietante falta de conteúdo. Escolhas são feitas com a medida única e exclusiva da possibilidade de que se traduzam em votos, na preferência dos eleitores que, multiplicada, conduza afinal ao resultado desejado. Traduzindo assim ambições que não significam necessariamente propostas e compromissos, um ideal de construção coletiva que supostamente melhor refletiria o propósito de cada um dos movimentos. Se não a essência e objetivo mais alto da democracia, no modelo político entendido como melhor e mais adequado. Ou menos ruim, como disse certa ocasião conhecido – e respeitado – político britânico.
Tal vazio de ideias, em que ambições continuam parecendo mais fortes que propósitos, faz mais que desnudar falhas e imperfeições do sistema, além dos riscos que continuam carentes de melhor avaliação. Nos ajudam a compreender também como e porque desvios que em outras condições seriam dados como inaceitáveis são incorporados como meros sinais de um destino inescapável. Tudo, o balé de mau gosto e cansativamente repetitivo que ocupa a cena política, com partidos esquecendo origens, ideologias e programas para assumirem a condição exclusive de “siglas de aluguel”, procurando seu lugar ao sol, assumido e naturalizado sem qualquer disfarce.
A vitória a qualquer preço, como objetivo único em que também a coerência derrete e fica de lado, parece refletir também as inconveniências da extrapolação do marketing político. Levado às ultimas consequências com ajuda da comunicação de massa, televisão em especial e agora as redes sociais, faz parecer que conquistar votos possa ser algo tão simples quanto vender sabonetes. Exatamente para que a embalagem pareça, e de fato possa ser, mais importante que o conteúdo.
Nada a estranhar, nessas condições que os principais movimentos continuem acontecendo à margem da apresentação e construção de propostas que reflitam programas de governo, apontando assim caminhos que a vontade dos eleitores confirmará ou não. Eis porque a verdadeira democracia, no sentido elementar da identificação e reconhecimento da vontade e das preferências majoritárias, acaba de alguma forma perdendo seu sentido maior, porque aviltada na essência.
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