Ambientalistas, Ministério e ONU criticam proposta de lei

Professores, cientistas e entidades questionam impactos de projeto aprovado no Senado
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Ambientalistas, Ministério e ONU criticam proposta de lei
Foto: Agência Brasil/Lula Marques

PL da Devastação. É assim que muitos ambientalistas e membros da comunidade científica definem o projeto de lei que propõe a criação da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, sob o argumento de que a flexibilização dos processos abrirá ainda mais caminho para a destruição do meio ambiente.

No mesmo dia da aprovação do PL no Senado, o Ministério do Meio Ambiente divulgou nota condenando o projeto, ressaltando que o texto “representa risco à segurança ambiental no País”. A Pasta também defendeu que o documento “viola o princípio da proibição do retrocesso ambiental, consolidado na jurisprudência brasileira, segundo o qual o Estado não pode adotar medidas que enfraqueçam direitos”.

A ministra Marina Silva é crítica do projeto e tem feito alertas constantes quanto à sua aprovação. Ela também solicitou ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), mais tempo para discussão na Casa e tem insistido nos riscos que enxerga nas novas regras, como uma possível guerra fiscal na atração de investimentos e uma judicialização em massa que poderá travar os aportes no País, em vez de acelerá-los.

“Não somos contra a atualização da Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Mas essa atualização não pode servir de desculpa para acabar com um dos principais instrumentos de proteção ambiental do nosso País”, afirma a ministra em publicação nas redes sociais.

O Observatório do Clima também se manifestou, argumentando que a proposta pode “resultar em desastres e riscos à saúde e à vida da população” e “omite a crise climática”. Mais recentemente, o governo brasileiro recebeu uma carta formal da Organização das Nações Unidas (ONU), questionando o projeto de lei e alertando para as consequências negativas caso ele seja aprovado como está. O texto menciona violações de direitos humanos, sobretudo contra os povos indígenas e as comunidades quilombolas, além de danos irreversíveis ao meio ambiente.

Daniel Neri sobre flexibilização do licenciamento ambiental: “Um retrocesso que acelera o colapso”

Para o professor e pesquisador Daniel Neri, a Lei Geral de Licenciamento Ambiental representa um ataque direto à Constituição Federal e um grave retrocesso na política ambiental brasileira. Ele destaca que o artigo 225 da Constituição é claro ao garantir o direito de todos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado e que qualquer mudança estrutural nessa área só poderia ocorrer por meio de emenda constitucional, e não por lei ordinária. Por isso, acredita que o desfecho da discussão será inevitavelmente judicializado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Ele critica a narrativa de que o novo marco traria mais segurança jurídica, argumentando que essa promessa é enganosa e serve apenas para mascarar o enfraquecimento das regras de proteção ambiental. Também afirma que a ideia de que um licenciamento mais ágil representa maior proteção é uma falácia perigosa. “Eles falam o tempo todo em segurança jurídica, mas segurança para quem? Para quem quer destruir, explorar sem limites? Não existe licenciamento ambiental rápido que signifique mais proteção. Pelo contrário: quanto mais rápido, menos aprofundado, menos estudo, menos cuidado. É correr para aprovar sem olhar os impactos reais”, alerta.

Neri ainda alerta para os impactos de longo prazo da flexibilização do licenciamento e reforça que o cenário atual exige a escolha entre dois caminhos: o colapso ou o adiamento desse colapso, pois o projeto de lei “é um retrocesso que acelera esse colapso”.

“Estamos em um momento crítico, com mudanças climáticas aceleradas, eventos extremos cada vez mais frequentes, e eles estão preocupados com o lucro, não com o futuro das próximas gerações. O que estamos tentando fazer é adiar o colapso, ganhar tempo para construir alternativas mais justas e sustentáveis. E esse projeto de lei vai exatamente na direção contrária: retira as proteções, enfraquece o licenciamento e desmonta os instrumentos de controle. Não há meio-termo possível. Ou se protege, ou se destrói. E o que eles estão propondo é destruir. Enquanto o modelo de desenvolvimento for o lucro a qualquer custo, a financeirização acima de tudo, continuaremos nesse caminho suicida.”

“Estamos destruindo o ciclo da vida”, alerta de Apolo Heringer

Para o professor Apolo Heringer, criador do Projeto Manuelzão, a aprovação da Lei Geral de Licenciamento Ambiental representa uma ameaça direta ao equilíbrio ecológico e à segurança hídrica do País. “A vida na Terra levou bilhões de anos para se formar, com ecossistemas que propiciaram a biodiversidade, a água, a vida animal e vegetal. E estamos destruindo tudo isso para exportar commodities e gerar lucro para poucos”, afirma.

Segundo ele, o desmatamento crescente, aliado à retirada descontrolada de água subterrânea para o agronegócio, a mineração e a indústria, está levando o País a uma “seca subterrânea” — um fenômeno que considera pouco compreendido, mas de efeitos devastadores. “A crise hídrica não é só falta de chuva. É a seca subterrânea causada pelo bombeamento sem controle. O agronegócio, a mineração e a indústria estão sugando a água subterrânea como se fosse petróleo”, afirma.

Heringer critica duramente a lógica econômica que sustenta o avanço das fronteiras agrícolas e extrativistas, apontando que “o Brasil está exportando a própria água, sua biodiversidade, sua floresta, sem desenvolver tecnologia ou agregar valor”.

Para ele, a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, ao facilitar ainda mais o desmatamento e o uso intensivo de recursos, vai acelerar o colapso, já que o licenciamento ambiental funciona como o que chama de “último freio” e precisa ser tratado com seriedade. Por isso, considera a situação um retrocesso irreversível: “Essa lei vai acabar com as camadas de proteção. Vai retirar a necessidade de anuência do ICMBio, eliminar as consultas às comunidades tradicionais e reduzir o processo de licenciamento a um simples protocolo. Eles querem transformar tudo em formalidade, sem ouvir ninguém. Não há meio-termo. Já estamos no limite desde 1500, e agora é questão de sobrevivência”, enfatiza.

O pesquisador também denuncia que a nova lei enfraquece instrumentos fundamentais de proteção, como a gestão por bacias hidrográficas e a preservação das áreas de recarga de aquíferos. “Hoje, mais vale água do que terra. A gestão das bacias deveria garantir água para a economia, mas o que estamos vendo é um suicídio coletivo. Eles estão destruindo as matas, acabando com a água, e o povo mais pobre é o primeiro a sofrer: sem água, sem peixe, sem produção agrícola”, afirma.

O impacto nas comunidades tradicionais, ribeirinhas e nos pequenos produtores será devastador segundo Heringer: “É uma guerra econômica contra o povo pobre. Eles ganham dinheiro com a destruição, enquanto o povo passa fome e sede. Estamos destruindo o ciclo da vida e criando um deserto. Ou paramos agora, ou o colapso será inevitável”, conclui.

Sobre o autor

Mara Bianchetti

Editora do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva, com especialização em Jornalismo em Ambientes Digitais pelo UniBH. Premiada entre os jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/marabianchetti/

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas