Do potencial do Carnaval de BH ao case de Ouro Preto, passando pelo interesse global por Inhotim
O sucesso do Carnaval de Belo Horizonte, que este ano atraiu mais de 6 milhões de foliões, segundo dados da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), movimentando R$ 1,4 bilhão, é um caso de sucesso que pode ser melhor aproveitado para atrair negócios e gerar desenvolvimento socioeconômico na Capital.
Para o estrategista de marca e professor de Publicidade e Propaganda do Uni-BH, Antônio Terra, o evento está consolidado e é hora de pensar estrategicamente em como transformá-lo em um indutor de desenvolvimento, revelando a sofisticação das cadeias produtivas envolvidas. Segundo ele, o sentimento de orgulho e a sensação de pertencimento gerados pelo evento precisam ser canalizados para que a sociedade alcance um ganho coletivo e de longa duração.
“Somos bons de vender o produto final, agora é hora de formar um hub de produção. Nosso Carnaval é autêntico e artesanal, e a indústria da moda poderia aproveitar esse momento de grande exposição positiva, por exemplo. Também somos reconhecidos por termos um evento seguro. Então, podemos exportar tecnologia de controle de multidões. Precisamos de mais planejamento para aproveitar as oportunidades. O Carnaval trouxe uma quebra de estigmas. Belo Horizonte está mostrando que tem lifestyle e isso é cada vez mais importante para as marcas, para os negócios. Falta entender que branding não é uma logo bonita, mas uma mensagem de eficiência”, alerta.
Tamanho o sucesso da folia na capital mineira, que entre os dias 14 e 17 de fevereiro, os hotéis de Belo Horizonte registraram uma ocupação média de 85,62%, com pico de 92,3%. O Aeroporto Internacional de Belo Horizonte (BH Airport), em Confins, na Região Metropolitana, registrou crescimento de 18,5% em passageiros internacionais, totalizando 8.887 viajantes, e a rodoviária teve 152.258 passageiros registrados, aumento de 2,6%.
Segundo o professor de Ciências Contábeis da Estácio BH, Alisson Batista, a estratégia precisa ser pensada regionalmente, levando em conta que as cidades podem ser complementares na oferta de atrativos e nas qualidades procuradas por candidatos a investidores.
“O investidor chega como turista. Ele experimenta, vive a cidade. Depois traz a família até decidir fazer o investimento. Ele tem que sentir segurança, confiar na infraestrutura. A visibilidade dada pelo turismo ajuda nisso tudo. O governo precisa investir em infraestrutura e divulgação e pode fazer isso em conjunto com a iniciativa privada na forma de contrapartidas ou de patrocínios. É uma via de mão dupla, em que um alavanca o outro”, afirma Batista.
Inhotim: interesse global e negócios locais ativados pelo turismo
Ao completar 20 anos, o Instituto Inhotim se consolida como um destino de classe mundial, indicado pelo jornal estadunidense New York Times como um dos 52 destinos imperdíveis em 2026. Único destino brasileiro na lista, o Inhotim tem uma localização privilegiada – entre os ricos biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, na cidade de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). As paisagens exuberantes ao longo dos 140 hectares de visitação proporcionam aos visitantes uma experiência única que mescla arte e natureza. Cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas, de 43 países, compõem o acervo e são exibidas ao ar livre e em galerias em meio a um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, vindas de todos os continentes.

De acordo com a secretária de Cultura e Turismo de Minas, Bárbara Botega, o reconhecimento do New York Times (NYT) não só coloca o Inhotim na prateleira do mundo, como joga luz sobre Minas Gerais como um destino surpreendente, que se destaca da conhecida dupla sol & mar, que não é capaz de, sozinha, definir o Brasil.
“Minas tem um grande poder. Nossas pesquisas mostram que 85% dos visitantes querem retornar. Eles se tornam nossos divulgadores. Inhotim está ganhando o que é dele. Não existe nada parecido. Tem um desconhecimento nosso dessa importância para Minas. O NYT tratou também da gastronomia mineira, falou de outras características. Podemos atrair um público extremamente qualificado de fora, abrindo a possibilidade de atração de investimentos de todas as naturezas. Esse não é um momento de sorte, ele acontece por força de estratégias de promoção do destino Minas nos últimos anos”, pontua Bárbara Botega.
Turismo em Ouro Preto atrai outros negócios
“Pois tudo aqui é simplesmente lucilação do transcendente”. Assim define Ouro Preto (região Central), o poeta Carlos Drummond de Andrade, no poema “Ouro Preto, livre do tempo”. E, assim, a eterna Vila Rica atravessa o tempo e busca transformar o interesse do turista do mundo inteiro em possibilidades de investimentos e negócios.
Reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1980, como Patrimônio Mundial da Humanidade, Ouro Preto foi o primeiro bem cultural brasileiro a receber esse título, valorizando seu conjunto arquitetônico e urbanístico barroco, com destaque para as obras de Aleijadinho.
Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia da cidade, Felipe Vecchia, a movimentação turística faz com que um dinheiro novo entre na economia da cidade, alimentando diferentes cadeias produtivas, mas a cidade pode ir além.
“A atividade turística tem potencial para abrir campo para novas atividades econômicas, novos investimentos. Isso está ligado ao marketing que uma cidade tem com turismo. Ouro Preto é uma cidade patrimônio da humanidade, que já tem um fluxo turístico consolidado e que vem crescendo nos últimos anos. Nossa obrigação é mostrar o que a cidade tem além dos cartões postais”, explica Vecchia.
Segurança, mobilidade, mão de obra qualificada, proximidade com Belo Horizonte são alguns dos quesitos objetivos que Ouro Preto apresenta aos futuros investidores, mas é a cultura o principal ativo da antiga capital de Minas.
Foi o que aconteceu com o Vila Galé Collection Ouro Preto. O hotel, com 298 quartos, no distrito de Cachoeira do Campo, consumiu um investimento de R$ 120 milhões e ocupa as antigas instalações do Colégio Dom Bosco, que também abrigaram o Quartel do Regimento de Cavalaria do Estado.
“Este é um lugar ímpar em belezas naturais, artísticas e culturais. O projeto passou de 228 para 298 quartos e de R$ 80 milhões para R$ 120 milhões. O Brasil precisa apostar na sua originalidade, naquilo que não pode ser replicado. Este é um exemplo. O País é lindo, diverso e rico em cultura e isso precisa ser conhecido pelo mundo”, declarou o presidente da rede portuguesa, Jorge Rebelo de Almeida, durante a execução das obras.

Além do aumento do número de quartos, o empreendimento também ganhou um centro de eventos e plantações de uvas e olivas, para a produção de vinhos e azeites com a marca do grupo português. “O Vila Galé é um bom exemplo de como a cidade oferece oportunidades de negócios nem sempre óbvias. Do projeto original, eles não só aumentaram o número de leitos como criaram outros serviços, como o centro de convenções, que era uma carência da cidade, e a produção de vinhos e azeites porque perceberam que, além das condições naturais, um rótulo que levasse a marca Ouro Preto seria economicamente interessante”, justifica o secretário de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia.
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