Bolsonaro é alvo de operação e tem passaporte retido

Operação Tempus Veritatis da PF apura organização criminosa que teria atuado na tentativa de golpe de Estado

8 de fevereiro de 2024 às 9h32
Atualizada em 11 de fevereiro de 2024 às 12h05

img
Ex-presidente Jair Bolsonaro, durante depoimento na PF em outubro de 2023 | Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Brasília – O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi alvo de operação da Polícia Federal (PF) deflagrada nesta quinta (8) que investiga uma tentativa de golpe de Estado para mantê-lo no poder.

A PF foi à casa dele na Vila Histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), e apreendeu o celular de um de seus assessores, Tercio Arnaud Thomaz. Ele estava na residência com o ex-presidente.

Determinou também que Bolsonaro entregasse o passaporte. Como o documento não estava em Angra, os policiais deram 24 horas para que ele seja entregue.

“Saí do governo há mais de um ano e sigo sofrendo uma perseguição implacável”, disse Bolsonaro numa ligação de WhatsApp por vídeo à reportagem.

Além de determinar a entrega do passaporte, a PF informou ao ex-presidente que ele está proibido de se comunicar com os outros alvos da operação.

“Me esqueçam, já tem outro governando o país”, seguiu o ex-presidente. Ele afirmou à reportagemque está ainda se inteirando das buscas e apreensões e das prisões e que não poderia dar mais declarações. “Estou tentando entender, parece que é um novo inquérito”, disse.

Passaporte já está com a PF

Segundo o advogado de defesa do ex-presidente, Fábio Wajngarten, a entrega do passaporte ocorreu pouco antes do meio-dia desta quinta-feira (8). Em post publicado na rede social X, o advogado informa que o documento “já foi entregue para as autoridades competentes, antes das 12:00, em Brasília conforme determinação”.

Na sequência, o advogado lembra que “na única vez que o presidente Bolsonaro saiu do Brasil, num passado próximo, a convite do governo eleito da Argentina, os advogados peticionaram ao Supremo consultando e comunicando”.

Confira os posts

Sobre a operação: prisões e motivações

A PF deflagrou nesta quinta a Operação Tempus Veritatis para apurar organização criminosa que teria atuado na tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado democrático de Direito. Ela teria tentado obter vantagem de natureza política com a manutenção do então presidente da República no poder mesmo depois de derrotado por Lula (PT) nas eleições.

As informações que embasaram a operação foram coletadas na delação do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid.

Os policiais cumprem 33 mandados de busca e apreensão e quatro mandados de prisão preventiva em dez estados e no Distrito Federal (DF).

Dois ex-assessores de Bolsonaro – o coronel Marcelo Câmara e Filipe Martins – foram presos. Câmara já era investigado no caso da fraude ao cartão de vacinação do ex-presidente. Martins foi assessor especial para Assuntos Internacionais do ex-presidente.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, também foi preso em flagrante por porte ilegal de arma de fogo. A arma foi localizada pela Polícia Federal durante a ação de busca e apreensão. Valdemar foi conduzido para a sede da PF. O diretório nacional do PL, em Brasília, também foi alvo de buscas, segundo parlamentares da sigla.

Há ainda medidas cautelares, como proibição de contatos entre os investigados, retenção de passaportes e destituição de cargos públicos.

Entre os alvos da operação estão os ex-ministros de Bolsonaro general Augusto Heleno (GSI), general Braga Netto (Casa Civil e Defesa), Anderson Torres (Justiça) e o ex-comandante do Exército Paulo Sérgio Nogueira.

Nogueira é acusado de ter comandado a investida do Exército contra as urnas eletrônicas.

Na lista estão ainda o almirante Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha, e o general Estevam Theophilo Gaspar. Ligado a Paulo Nogueira, ele foi o chefe do Comando de Operações Terrestres do Exército no governo Bolsonaro.

Além dos mandados de prisão preventiva contra Felipe Martins e Marcelo Câmara, um outro assessor, Rafael Martins, major das Forças Especiais do Exército, deve ser detido e está sendo procurado.

As medidas foram autorizadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das milícias digitais.

Segundo a PF, as investigações apontam que o grupo investigado se “dividiu em núcleos de atuação para disseminar a ocorrência de fraude nas Eleições Presidenciais de 2022, antes mesmo da realização do pleito, de modo a viabilizar e legitimar uma intervenção militar, em dinâmica de milícia digital”.

Depois disso, o grupo teria desenvolvido atos concretos para “subsidiar a abolição do Estado democrático de Direito, através de um golpe de Estado, com apoio de militares com conhecimentos e táticas de forças especiais no ambiente politicamente sensível”.

Os mandados estão sendo cumpridos nos estados de Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo.

O Exército Brasileiro acompanha o cumprimento dos mandados em que militares são alvos.
Uma semana após a posse do presidente Lula (PT), no dia 8 de janeiro de 2023, um grupo de apoiadores de Bolsonaro invadiu e depredou as sedes dos três Poderes, em Brasília.

Os manifestantes estavam acampados diante do quartel-general do Exército havia várias semanas. O comando das Forças Armadas, naquele momento, se negava a retirá-los do local. Foi dali que milhares eles partiram para a Esplanada dos Ministérios e vandalizaram áreas internas do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do STF.

Lula determinou a instauração de uma intervenção federal. Centenas dos manifestantes foram presos e estão sendo investigados. O Supremo já condenou 29 réus -alguns deles, a mais de 17 anos de prisão.

Bolsonaro pediu alteração em minuta do golpe, que previa prisão de Moraes

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que autorizou as prisões e buscas nesta quinta-feira (8) afirma que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teve acesso e pediu modificações na chamada “minuta do golpe”, mantendo a previsão de prisão de Moraes.

“Os elementos informativos colhidos revelaram que Jair Bolsonaro recebeu uma minuta de decreto apresentado por Filipe Martins [então seu assessor] e Amauri Feres Saad para executar um golpe de Estado, detalhando supostas interferências do Poder Judiciário no Poder Executivo e ao final
decretava a prisão de diversas autoridades, entre as quais os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco”, diz a decisão do ministro.

“Posteriormente foram realizadas alterações a pedido do então presidente, permanecendo a determinação de prisão do Ministro Alexandre de Moraes e a realização de novas eleições.”

Polícia Federal pf faz operação Bolsonaro
Polícia Federal faz operação | Crédito: PF / divulgação

Lula diz que tentativa de golpe não teria ocorrido sem Bolsonaro

O presidente Lula (PT) falou na manhã desta quinta-feira (8) sobre a operação da Polícia Federal que mira o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus ex-ministros, assessores e chefes das Forças Armadas.

“O dado concreto é que houve uma tentativa de golpe. Houve tentativa de destruir uma coisa que construímos há muito tempo que é o processo democrático. Queremos saber quem financiou quem pagou quem financiava aqueles acampamentos para que nunca mais aconteça o que aconteceu no dia 8 de janeiro [de 2023]”, disse Lula em entrevista à rádio Itatiaia.

“O cidadão [Bolsonaro] que estava no governo não estava preparado para ganhar, não estava preparado para perder, não estava preparado para sair, tanto é que não teve coragem e foi embora para os Estados Unidos, porque deve ter participado da construção dessa tentativa de golpe. Acho que não teria acontecido sem ele.”

“As pessoas precisam aprender que eleição democrática a gente perde e a gente ganha quando a gente perde a gente lamenta quando a gente ganha a gente toma posse e governa”, seguiu Lula.

“Ele [Bolsonaro] passou o tempo inteiro criando suspeição sobre urna. Tática que utilizou para criar na sociedade um descrédito. Quando você cria um descrédito, você pode fazer qualquer coisa, desmoraliza o processo.”

(Mônica Bergamo, Fábio Serapião, Bruno Boghossian, Ranier Bragon, Cézar Feitoza, Leonardo Augusto e Jóse Marques)

Facebook LinkedIn Twitter YouTube Instagram Telegram

Siga-nos nas redes sociais

Comentários

    Receba novidades no seu e-mail

    Ao preencher e enviar o formulário, você concorda com a nossa Política de Privacidade e Termos de Uso.

    Facebook LinkedIn Twitter YouTube Instagram Telegram

    Siga-nos nas redes sociais

    Fique por dentro!
    Cadastre-se e receba os nossos principais conteúdos por e-mail