Vale do Aço aposta em rotas turísticas para atrair visitantes além da indústria
Conhecido pela sua potência econômica, marcada especialmente pela indústria siderúrgica, o Vale do Aço reúne uma população que ultrapassa 700 mil habitantes e pode oferecer muito mais do que uma paisagem cinza marcada pelas grandes indústrias. O esforço de reunir estrategicamente riquezas naturais, históricas, culturais e gastronômicas e dar a elas o formato de atrativos turísticos começa a fazer efeito com a escolha da rota “Vale Além do Aço”, como uma das prioridades para a promoção pelo governo do Estado em setembro.
A Vale Além do Aço amplia a oferta turística da região de Açucena, Belo Oriente, Coronel Fabriciano, Ipatinga, Marliéria, Santana do Paraíso, São Domingos do Prata e Timóteo, valorizando os patrimônios naturais, culturais e as experiências locais. A rota faz parte do Circuito Turístico Mata Atlântica de Minas (CTMAM). Apenas São Domingos do Prata faz parte do Circuito Turístico Montanhas e Fé.
Também fazem parte do CTMAM: Antônio Dias, Bom Jesus do Galho, Bugre, Conceição de Ipanema, Iapu, Inhapim, Ipaba, Jaguaraçu, Rio Piracicaba, Santa Maria de Itabira, São José do Goiabal, Tarumirim, Ubaporanga.
A rota reúne quatro roteiros:
- Ipatinga Rural: propõe uma reconexão com o ritmo tranquilo da vida no campo e com a beleza exuberante da fauna e flora local. Também a valorização da cultura local com um mergulho na rica cultura do povo mineiro, aprendendo sobre as tradições, culinária e modo de vida.
- Vale dos Tropeiros: Uma rota especial para os amantes do cicloturismo. Com 200 quilômetros (km) de extensão, é dividida em cinco etapas, conectando os municípios de Timóteo, Marliéria, Dionísio, São Domingos do Prata, Jaguaraçu e Antônio Dias. No caminho é possível explorar museus, sítios arqueológicos e outras atrações que contam a história dos tropeiros que formaram a região, aproveitando, ainda, vales verdejantes, cachoeiras cristalinas, montanhas imponentes e áreas de Mata Atlântica preservadas.
- Serra dos Cocais: em Coronel Fabriciano, a rota oferece um clima de montanha, natureza exuberante e boa comida para os visitantes. Os aventureiros podem se deliciar com trilhas desafiadoras, cachoeiras cristalinas e mirantes com vistas panorâmicas de tirar o fôlego. Já os amantes da boa comida podem se aventurar em restaurantes que servem pratos típicos da região, preparados com ingredientes frescos e de alta qualidade.
- Rota do Mutum: lançada em 2019, percorre quase 50 quilômetros na zona rural de Ipaba. O passeio une artesanato, gastronomia, cultura com valorização da tradição e preservação ambiental. Uma das visitas acontece na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Fazenda Macedônia, uma área da Cenibra dedicada ao Projeto Mutum, que atua na reintrodução de aves silvestres ameaçadas de extinção.
De acordo com o analista do Sebrae Minas, Alessandro Challub, as experiências integram paisagens naturais, patrimônio histórico e a rica gastronomia mineira, proporcionando vivências imersivas em uma das regiões mais dinâmicas do Estado.

“Começamos, em 2011, por criar uma marca para nos identificar como região. Refletimos sobre deixar o aço no nome ou não. A história do aço é motivo de orgulho para nós. Queríamos mostrar que aqui vale a pena viver e visitar, que consideramos o aço importante e também o resto”, diz.
Ele conta que os turistas vinham, mas ainda não existia serviços turísticos estruturados. “O Ipatinga Rural foi o primeiro projeto, feito pela Prefeitura. No início as coisas não andaram e, em 2019, o Sebrae foi chamado. O planejamento tinha uma face de estruturar os empreendimentos e outra de promover o roteiro para atrair turistas. Criamos catálogos, vídeos e por fim, junto com a prefeitura, sinalizamos a área rural da cidade identificando o roteiro”, relembra Challub.
Para complementar a oferta de atrativos, duas rotas foram criadas. A primeira, a Vale dos Tropeiros – Cicloturismo, que já está toda sinalizada. Estão sendo elaborados passaporte e guia impresso. Mais de 50 empreendimentos participam da rota e recebem consultoria do Sebrae Minas.
As condições naturais para o cicloturismo colocam a região em um mercado global bilionário. De acordo com o relatório Global Mercado de Turismo Ciclístico, publicado pela consultoria Mordor Intelligence, O tamanho do Mercado de Turismo Ciclístico foi avaliado em US$ 147,24 bilhões em 2025 e estima-se que cresça de US$ 160,97 bilhões em 2026 para atingir US$ 251,43 bilhões até 2031, a uma taxa de crescimento composta de 9,32% durante o período de previsão (2026-2031).
“O mercado de turismo ciclístico recompensa cada vez mais itinerários diferenciados, como trilhas gastronômicas e retiros corporativos de bem-estar, que comandam gastos per capita 18-25% maiores do que as saídas padrão. O corredor Ásia-Pacífico, onde os governos vinculam metas climáticas à mobilidade ativa, demonstra como incentivos direcionados podem comprimir anos de acúmulo de demanda em um único ciclo de planejamento”, aponta o documento.
E, por fim, a rota Serra dos Cocais, com oito empreendimentos já capacitados, talvez o frio seja uma das grandes estrelas. À medida que a altitude cresce, o frescor aparece, o verde se intensifica e as montanhas ficam cada vez mais próximas. Por lá passaram diversas expedições de tropeiros no século XVI e seu legado permanece até os dias de hoje com suas memórias e caminhos.
“As rotas já estão na prateleira e agora estamos trabalhando as agências como receptivos. Estamos em uma região de fácil acesso e temos um público potencial aqui mesmo. Agora estamos nos apresentando como região e o importante é que o turista venha para conhecer a região e não apenas um município. Sempre vai ter novidade”, convida o analista do Sebrae Minas.
Turismo rural muda vida de empreendedores no Vale do Aço
Em Ipatinga, a proprietária do Cozinha & Arte, Cidinha Sampaio, se propôs a abrir a cozinha de casa para oferecer uma experiência afetiva em que as pessoas cozinham, conversam e desaceleram.
Aqui não é um restaurante, é uma cozinha interativa. A palavra que me definiu a mim e ao meu negócio é intimismo. Aqui é para as pessoas olharem um para o outro e abaixarem a ansiedade. A cozinha interativa foi pensando em um turismo de baixa escala. As pessoas sempre pensam no Vale do Aço sempre como um centro urbano, mas temos muito a oferecer. Uma vantagem é a proximidade com Belo Horizonte e, ainda, tem o charme de poder chegar de trem”, diz.

Já em Coronel Fabriciano, o Recanto Chérie oferece, aos domingos, almoço a la carte, tira-gostos variados e drinques especiais. Indicado para quem busca atendimento personalizado, comida mineira e descanso em contato com a natureza, dá aos visitantes a oportunidade de degustar a legítima culinária mineira com a família e amigos ouvindo o som dos pássaros à beira de uma cachoeira.
A anfitriã do espaço, Rosângela Ferreira, destaca uma receita de família, a carne de lata, como carro-chefe da comilança que, invariavelmente, acaba em um merecido descanso na rede ou no sofá no deck que dá acesso à cachoeira. Desde 2023, a casa funciona aos domingos com reserva para o almoço.
“A carne de lata é uma tradição de família. Eu me lembro que quando era criança não tinha energia elétrica em casa. A carne de lata é uma tecnologia de conservação. Feita devagar, no fogo baixo, ela acaba criando suculência e sabor únicos. Aqui ninguém precisa ir embora com pressa”, destaca.
E no Distrito de Santana do Alfié, pertencente a São Domingos do Prata, inaugurada em 2020, a Pousada Alfié Real combina infraestrutura com atividades de turismo cultural e de aventura. De acordo com o proprietário do empreendimento, José Antônio de Oliveira, lá é o destino ideal para famílias, casais e grupos que desejam vivenciar a cultura local e relaxar.
“Há mais de três décadas tenho essa propriedade rural de rara beleza cênica e sempre achei que seria egoísmo não compartilhar com outras pessoas. Depois de encerrar minha carreira em engenharia de manutenção queria ter uma continuidade profissional e isso aconteceu através da fazenda. A oportunidade de participar da rede de turismo pelo Sebrae deu início a tudo. Fui um dos primeiros 22 empreendimentos que começaram o Vale dos Tropeiros. Fiz também um curso de agente de turismo e vários outros treinamentos. Hoje trabalho por amor e os resultados vêm superando todas as expectativas”, relata Oliveira.
Curiosidade
Santana do Alfié foi fundada no século XVIII (por volta de 1730), ligado ao ciclo do ouro e à história dos tropeiros. Acredita-se que a origem do nome venha da expressão popular “ouro fiel” pronunciada na época.
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