Conectados e expostos: golpes virtuais avançam entre idosos e fazem 54 vítimas por dia em Minas

Com o aumento do uso da internet pela população idosa, fraudes digitais se multiplicam e exigem mais informação para garantir segurança e autonomia
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Conectados e expostos: golpes virtuais avançam entre idosos e fazem 54 vítimas por dia em Minas
Foto: Giulia Simmons

Receber a aposentadoria, agendar consultas, pagar contas, conversar com filhos e netos, acessar serviços públicos e até pedir um carro por aplicativo. Para 90% da população brasileira, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2025, a vida cotidiana passou a depender da internet. Entre os idosos com 60 anos ou mais, essa proporção é de 74,5% e segue em crescimento acelerado, com aumento de 4,4 pontos percentuais em relação a 2024.

É verdade que a transformação digital trouxe praticidade e independência para essa população, mas também abriu espaço para um novo desafio: navegar com segurança em um ambiente onde os golpes financeiros se tornam cada vez mais sofisticados.

Especialistas chamam esse fenômeno de migração do crime real para o virtual. Se, há mais de uma década, a “moda” entre os criminosos era a saidinha de banco, crime que vitimava muitos idosos logo após sacarem suas aposentadorias nas agências bancárias, hoje o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra outra realidade. Entre 2018 e 2025, houve crescimento de mais de 400% no número de fraudes digitais. Só em 2025, foram registrados 346.753 estelionatos virtuais no País, o equivalente a quase 40 golpes por hora.

Em Belo Horizonte, o engenheiro eletricista aposentado Marcelo Maia, de 83 anos, é uma das vítimas. Enquanto navegava pelo Instagram, ele se deparou com uma oportunidade aparentemente imperdível. Investindo um valor relativamente baixo por meio de uma “nova plataforma que faz a inteligência artificial trabalhar por você”, supostamente poderia ganhar muito dinheiro. Mas acabou perdendo mais de R$ 2,5 mil.

Marcelo se junta a outros quase 11 mil idosos que foram vítimas de crimes cibernéticos em Minas Gerais somente neste ano (até o dia 21 de julho), uma média de 54 vítimas por dia. Os dados da Polícia Civil também mostram que o tipo mais comum de crime no ambiente virtual é o estelionato, modalidade que já fez 286 mil vítimas (de todas as idades) entre 2020 e julho de 2026.

No caso de Marcelo, a proposta não veio de um bandido desconhecido e encapuzado, mas de um famoso empresário que ele admira – e confia. Para fazer o investimento, que prometia um retorno financeiro robusto, bastava informar seu nome e seus dados de contato. Cinco minutos depois, recebeu uma ligação orientando-o a fazer um Pix de US$ 500.

“Eu fiz isso, e a pessoa disse que, depois de algum tempo, voltaria a falar comigo, mas isso nunca aconteceu. Quando contei para a minha neta, ela imediatamente disse: ‘Vô, o senhor caiu em um golpe’. Depois disso, já vi várias outras pessoas fazendo as mesmas propostas no Instagram, tanto desconhecidas quanto famosas. Elas dizem que, fazendo essa aplicação, vamos ganhar R$ 15 mil por mês sem esforço nenhum”, lembra.

A imagem que seduziu Marcelo não era verdadeira. Tratava-se de uma deepfake, tecnologia baseada em inteligência artificial capaz de manipular rostos, corpos e vozes para criar vídeos e áudios falsos, mas realistas. O empresário em questão (o verdadeiro) chegou a publicar um vídeo em seu perfil no Instagram alertando sobre o golpe praticado com o uso de sua imagem.

Como os golpistas convencem as vítimas

O delegado Arthur Martins da Costa Benício, responsável pela 1ª Delegacia Especializada em Investigação de Crimes Cibernéticos, explica que a promessa de ganhos fáceis é um dos recursos de convencimento mais utilizados pelos criminosos e também um dos principais sinais de alerta.

“O público desse tipo de crime é variado, mas identificamos que os idosos estão entre os mais suscetíveis a essa modalidade. Nesses casos, o golpista tenta gerar um sentimento de pânico na vítima para criar uma falsa sensação de urgência, capaz de inibir algum juízo crítico e fazer com que ela forneça credenciais de acesso, como senhas e dados da conta. Chamamos isso de engenharia social da emergência. A dica é sempre desconfiar desses vetores de urgência, como investimentos milagrosos que prometem retorno muito superior à média do mercado”, orienta.

Giulia, de 23 anos, neta de Marcelo, pesquisou a chave para a qual o avô enviou o dinheiro e descobriu uma conta localizada em uma ilha no oceano Índico, com todo o “jeito” de paraíso fiscal. Eles entraram em contato com o banco, relataram o ocorrido e, depois de algum tempo, conseguiram reaver o valor.

Já a mulher de Marcelo, a dona de casa Suzana Simmons, de 79 anos, não teve a mesma sorte. Ao se deparar com uma promoção também “imperdível” na página de uma famosa loja de brinquedos, não hesitou.

“Eram 50 carrinhos por R$ 180. Fiquei encantada. Meu neto ia fazer 5 aninhos, e eu comprei para ele de presente. Paguei à vista, no Pix, mas a compra nunca chegava. Então, Giulia e eu fomos até a loja, e o funcionário disse que eles nem faziam aquela promoção. Mostrei a ele o site em que entrei, e até ele ficou espantado, porque era muito difícil diferenciá-lo do verdadeiro”, relata.

Mais cautela na rotina digital

Suzana não recuperou o dinheiro, nem o neto ganhou os carrinhos, mas hoje ela é muito mais atenta: “Depois dessa, eu não caio mais. Até mexo em aplicativo de banco, consigo fazer transferências e mando Pix para os meus netos. Mas quando preciso pagar um boleto, concluir uma compra on-line ou fazer algo semelhante, espero a Giulia chegar. Me sinto mais segura assim”.

O marido, que sempre foi reticente em relação à tecnologia, também tem redobrado a atenção. “Eu tinha um celular só para fazer e receber chamadas, mas instalei o WhatsApp para manter contato com um grupo de amigos aposentados do trabalho. E isso foi bom, porque agora sempre marcamos encontros presenciais por lá. Depois, também criei perfis nas redes sociais. Fora isso, quase tudo o que faço, como compras, ainda é presencial. Muitas pessoas não fazem mais depósitos presencialmente, mas eu faço questão de ir ao banco. Sinto mais segurança desse modo”, diz.

Marcelo mantém contas em um banco tradicional e em uma cooperativa de crédito. “Esses bancos que não têm agência física eu não uso. O banco da cooperativa, inclusive, me manda constantemente e-mails alertando para golpes. Na agência, sempre que vou, há um cartaz explicando cerca de dez tipos de golpes. Os próprios gerentes também conversam sobre isso com a gente. E parece que lá sou recebido com mais empatia”, conclui.

Suzana desabafa: “Idoso está sempre caindo em golpes virtuais. Isso é o que dá confiar nas pessoas. Ainda bem que foi uma compra pequena para o meu neto; dos males, o menor. Outro dia mesmo vi uma senhora tirando um empréstimo para enviar dinheiro a um cantor americano, achando que estava falando com ele. Não cheguei a tanto.”

A boa notícia é que muitos desses crimes podem ser evitados com medidas simples de prevenção. Na próxima reportagem da série, o Diário do Comércio apresenta um guia prático com as principais orientações da Polícia Civil para reconhecer fraudes, proteger dados e agir rapidamente em caso de golpe.

Sobre o autor

Juliana Baeta

Subeditora do portal Diário do Comércio desde 2024. Jornalista (Newton Paiva) e especialista em Comunicação Pública e Governamental (PUC Minas). Agraciada nos prêmios Mol de Jornalismo para a Solidariedade e CDL/BH de Jornalismo.

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