Na dúvida, não clique: guia para idosos se protegerem dos golpes virtuais

Delegado de Crimes Cibernéticos explica como funcionam os principais golpes, quais sinais devem despertar desconfiança e o que fazer caso a vítima transfira dinheiro para golpistas
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Na dúvida, não clique: guia para idosos se protegerem dos golpes virtuais
Responsável pela Delegacia Especializada em Investigação de Crimes Cibernéticos em Minas Gerais, o delegado Arthur Benício fala sobre os principais tipos de crimes virtuais e como identificar os golpes

Os crimes virtuais não acometem apenas pessoas idosas. Das 177.379 vítimas registradas entre 2025 e o primeiro semestre de 2026 em Minas Gerais, a maior parte (21%) tem entre 30 e 39 anos. Mas quando o assunto são os furtos virtuais, um dos principais tipos de crimes cibernéticos, a população com 60 anos ou mais é o alvo preferido dos criminosos. Entre o ano passado e este ano, 314 idosos foram vítimas desse tipo de golpe no Estado.

Para garantir que a tecnologia seja uma aliada da independência (e não uma armadilha), o Diário do Comércio consultou a Polícia Civil de Minas Gerais para entender quais são os principais crimes digitais, como se proteger e o que fazer caso a pessoa seja vítima de um golpe.

Principais crimes contra o patrimônio:

Tipos de crimes virtuais

Para o delegado Arthur Martins da Costa Benício, da 1ª Delegacia Especializada em Investigação de Crimes Cibernéticos, a principal dica é desconfiar.

“Sempre desconfie desses vetores de urgência, de investimentos milagrosos e de contatos informando que a sua conta foi invadida. Na dúvida, desligue. Depois, procure a agência bancária ou entre em contato com os canais oficiais do banco, seja por mensagem, ligação ou e-mail, para confirmar a informação. É mais seguro quando a iniciativa do contato parte do próprio cliente. A gente recomenda o comparecimento presencial porque o gerente poderá orientar e esclarecer se aquilo realmente é um golpe. E, na maioria das vezes, é, porque é muito raro os bancos ligarem para informar sobre operações bancárias”, explica.

Outro ponto de atenção são os números que aparecem no identificador de chamadas. Nem sempre eles correspondem à linha telefônica verdadeira. “Hoje em dia, temos visto que os golpistas mascaram a linha por meio de sistemas na internet. É o que chamamos de spoofing: o mascaramento da linha telefônica. Então, às vezes, a pessoa acredita que se trata do número oficial do banco, quando, na verdade, ele foi mascarado”, detalha o delegado.

Confira as orientações do especialista para não cair em golpes virtuais:

  • Desconfie de contatos que criem sensação de urgência, como ligações informando invasão da conta, compras suspeitas ou necessidade de fazer um Pix imediatamente.
  • Nunca forneça senhas, códigos de autenticação ou dados bancários por telefone, mensagem ou e-mail.
  • Em caso de dúvida, desligue a ligação e procure os canais oficiais da instituição financeira, de preferência presencialmente na agência ou por telefone e aplicativos oficiais.
  • Não clique em links recebidos por mensagens, e-mails ou aplicativos, principalmente quando enviados por remetentes desconhecidos.
  • Baixe aplicativos apenas pelas lojas oficiais, como Google Play Store e App Store.
  • Mantenha o sistema operacional do celular e do computador sempre atualizado, assim como todos os aplicativos instalados.
  • Utilize um bom software antivírus e mantenha os mecanismos de proteção do aparelho ativados, como firewall e ferramentas de segurança do sistema.
  • Ative a autenticação em dois fatores nas contas de e-mail, redes sociais e aplicativos bancários.
  • Utilize aplicativos autenticadores, como o Google Authenticator, para reforçar a segurança das contas.
  • Crie senhas fortes e difíceis de adivinhar, evitando datas de aniversário, nomes, iniciais ou outras informações pessoais.
  • Não salve senhas em blocos de notas do celular ou em locais desprotegidos, pois elas podem ser acessadas caso o aparelho seja roubado ou invadido.
  • Verifique a autenticidade de sites antes de realizar compras ou fornecer informações pessoais.
  • Pesquise a reputação de lojas virtuais e empresas em plataformas como o Reclame Aqui antes de efetuar uma compra.
  • Desconfie de investimentos que prometam lucros muito acima da média do mercado ou retorno garantido em pouco tempo.
  • Não instale aplicativos indicados por pessoas desconhecidas, especialmente durante ligações em que supostos funcionários de bancos orientam esse procedimento.
  • Não realize transferências bancárias ou Pix sob pressão, mesmo que o contato pareça ser do banco.
  • Não confie apenas no número exibido na chamada telefônica. Criminosos podem utilizar técnicas de mascaramento (spoofing) para fazer o telefone parecer o oficial da instituição.
  • Lembre-se de que golpistas podem conhecer dados pessoais, como CPF, endereço e nome dos familiares, devido a vazamentos de dados. Essas informações, por si só, não comprovam que o contato seja legítimo.
  • Leve para o ambiente virtual os mesmos cuidados que teria na vida real: não entregue senhas, não transfira dinheiro para desconhecidos e desconfie de abordagens inesperadas.

Caiu em um golpe? Saiba o que fazer

Nos golpes que envolvem transferências bancárias, sobretudo via Pix, o delegado recomenda agir rapidamente para interromper o prejuízo. “É preciso estancar aquele fluxo de dinheiro. Então, a primeira coisa a fazer é entrar em contato com o banco para denunciar a fraude”, orienta.

Há também um mecanismo do Banco Central específico para esses casos, que depende de solicitação junto à instituição financeira. Trata-se do Mecanismo Especial de Devolução (MED), exclusivo do Pix, criado para facilitar a devolução de valores em casos de fraude e aumentar as chances de a vítima recuperar o dinheiro.

“O banco vai tentar bloquear as transferências via Pix realizadas de forma fraudulenta. É muito importante que esse acionamento aconteça o mais rápido possível, porque, na prática, o dinheiro subtraído da vítima é rapidamente pulverizado por outras contas”, explica.

Veja o que fazer após cair em um golpe:

Ferramentas gratuitas que ajudam a evitar fraudes

Protege Mais

Ferramenta gratuita do Banco Central que permite impedir a abertura de contas bancárias em seu nome sem autorização.

Registrato

Sistema do Banco Central que mostra todas as contas bancárias, empréstimos e relacionamentos financeiros vinculados ao CPF.

Ambos podem ser acessados utilizando a conta Gov.br.

Rede de apoio e educação digital

Para quem tem pouca afinidade com a tecnologia, termos “software” e “autenticação em dois fatores” podem parecer distantes, mas sempre é possível buscar informações. O delegado Arthur Benício orienta que idosos contem com o apoio de familiares ou pessoas de confiança para realizar operações financeiras ou esclarecer dúvidas antes de concluir uma transação.

“Contar com o apoio de familiares pode ajudar na tomada de decisões e na compreensão dos procedimentos tecnológicos”, diz.

Outra orientação é literalmente buscar conhecimento. “Geralmente, pessoas mais velhas não têm conhecimento técnico sobre os avanços tecnológicos. Por isso, é importante se manter informado. A educação digital é fundamental na sociedade atual, em que boa parte das relações acontece no ambiente virtual”, conclui.

A resposta aos perigos virtuais, portanto, não é afastar os idosos da tecnologia, mas prepará-los para usá-la com confiança e segurança. Na próxima reportagem da série, conheça histórias de idosos que voltaram à sala de aula para aprender informática e descobriram que a tecnologia pode ser uma ferramenta de independência, inclusão e qualidade de vida.

Sobre o autor

Juliana Baeta

Subeditora do portal Diário do Comércio desde 2024. Jornalista (Newton Paiva) e especialista em Comunicação Pública e Governamental (PUC Minas). Agraciada nos prêmios Mol de Jornalismo para a Solidariedade e CDL/BH de Jornalismo.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas