E eu que não sabia… mas já estive diante de dois gênios

Saiba mais sobre os encontros com dois gênios da pintura e como isso impactou a sua percepção artística
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E eu que não sabia… mas já estive diante de dois gênios
Painel Azulejos é uma das mais belas obras do artista brasileiro Portinari | Crédito: Acervo / Projeto Portinari

“Portinari realiza o milagre da arte muda: exprimir, sem falar, uma mensagem brasileira!” (Otto Maria Carpeaux)

Vou buscar, na meninice e na adolescência, lembranças de pura nostalgia. Estive próximo, em momentos risonhos da vida, de dois gênios da pintura. Aconteceu por força de circunstâncias. Com acanhada visão, revelei-me carente de percepção para avaliar o significado dessas aproximações proporcionadas pelo acaso.

Seguinte: guris, ainda no ginásio, eu e o mano Augusto Cesar frequentávamos a casa de Alberto e Dute Sabino, amigos de nossos pais. Sentíamo-nos ali em casa. Albertinho atuava em seguros e possuía um amigão do peito, projeção da pintura: Cândido Portinari, Candinho pros íntimos. Os dois se visitavam com frequência. Em idas de Portinari à casa de Albertinho, em Uberaba, Augusto Cesar e eu recebíamos convites para montar um espetáculo literomusical homenageando o visitante. Dono de voz belíssima, que lhe valera prêmios em programas de auditório no Rio de Janeiro, o cantorzinho Augusto já exibia, naquela época, alguns dos dons que o celebrizariam, na fase adulta, na televisão, teatro e cinema, inclusive com a conquista de “Emmy” e de um “Ondas”. Minha participação, como declamador, recitando Castro Alves e Catulo, não passava de mero contrapeso no improvisado show. Portinari parecia partilhar do entusiasmo do casal pela dupla mirim. Tanto que andou convidando os filhos de “seo” Antônio e dona Antônia para se apresentarem em sua casa, lá em Brodosqui.

Todo mundo passou batido. O Albertinho, não sei, mas a ninguém da família acudiu a ideia, naqueles contatos descontraídos com o genial artista, de apoderar-se de um rabiscozinho qualquer onde figurasse a assinatura célebre que legou ao mundo obras-primas, brotadas de seu pincel mágico.

Da outra vez em que passei batido. Constrangedoramente batido. Foi na primeira tentativa de morar em BH. Ao concluir o curso médio, deixei o torrão natal à cata de oportunidades. A experiência durou ano e meio. Arranjei emprego no Depto. de Trânsito, graças à incrível Anita Góes, esposa do cel. Américo Góes, de saudosa memória. Fui morar numa pensão na rua Rio de Janeiro com Tupis. Dividia quarto com um colega. No aposento ao lado, vivia um pintor obsedantemente fixado em sua arte. Nada afeito a contatos, era visto, por horas, a extrair do pincel os frutos de sua criatividade. Vez em quando, desvencilhava-se de trabalhos que não saíam ao seu agrado, lançando-os no cesto de lixo. Eu bem que tentei, algumas vezes, espichar conversa com aquele vizinho de papo curto, quase monossilábico. Sem êxito. Não tive a percepção de que compartilhava espaço com um mestre da pintura. De nenhum morador ouvi a mais leve referência à genialidade de Alberto da Veiga Guignard.

Querem saber duma coisa? Dá vontade de pedir públicas desculpas por tão abestalhada alienação.

Cesar Vanucci
Sobre o autor

Cesar Vanucci

Jornalista ([email protected])

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