A tecnologia está preparada para quem envelhece?

Enquanto serviços migram para as telas, idosos enfrentam ferramentas pouco adaptadas, dificuldades de acesso e novos desafios nas relações sociais
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Mesmo com os riscos, a transformação tecnológica trouxe às pessoas idosas possibilidades de autonomia, convivência e até geração de renda, mas também criou novas formas de exclusão. Serviços essenciais migraram para as telas, ferramentas nem sempre estão adaptadas ao envelhecimento e, sem conhecimento para avaliar criticamente o que circula na internet, a conexão que deveria aproximar pode até aprofundar o isolamento.

Para o professor da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Cláudio Paixão, doutor em psicologia social, esse é um dos principais desafios quando se discute inclusão digital na terceira idade. “A grande questão do que a gente está chamando de inclusão digital não é só colocar o celular na mão do idoso. É ensinar esse idoso a desenvolver uma competência para lidar com a informação de uma forma crítica”, afirma.

Cláudio Paixão
O especialista Cláudio Paixão | Foto: Reprodução Youtube

A reflexão amplia a discussão sobre o acesso à tecnologia. Nas outras reportagens desta série especial, o Diário do Comércio mostrou como o avanço da digitalização expõe idosos a golpes cada vez mais sofisticados, mas também como o aprendizado pode proporcionar independência e abrir oportunidades, inclusive de geração de renda.

Entre essas diferentes faces da transformação digital, há um desafio menos visível: garantir que a população idosa consiga participar efetivamente de uma sociedade em que atividades básicas da vida cotidiana estão cada vez mais condicionadas às telas.

Quando a própria tecnologia se torna uma barreira

Agendar um serviço, movimentar uma conta bancária, acessar informações públicas ou comprovar a própria identidade são atividades que migraram, em diferentes graus, para o ambiente digital. O problema, segundo Paixão, é que nem sempre as ferramentas utilizadas para facilitar esses processos atendem adequadamente às características das pessoas mais velhas.

O professor cita como exemplos as tecnologias de reconhecimento facial e de leitura de impressões digitais. Segundo ele, características decorrentes do envelhecimento podem dificultar o reconhecimento pelos sistemas.

Ele próprio relata já ter enfrentado problemas com aplicativos bancários que não reconheciam seu rosto por causa da barba branca. Para pessoas ainda mais velhas, observa, dificuldades semelhantes podem ser potencializadas.

“O reconhecimento facial do idoso é um desafio; a própria leitura da impressão digital é algo mais difícil. Essas ferramentas foram calibradas para rostos e estruturas de pessoas mais jovens, então isso está gerando um problema. Tem idosos que não conseguem o acesso porque não conhecem o equipamento, e tem idosos que até conhecem, mas não têm êxito. Eu mesmo, que estou com 59 anos, dependendo do aplicativo de banco que pede o reconhecimento facial, não sou reconhecido. Acredito que seja por causa da barba branca, porque o aplicativo identifica a barba apenas como preta ou mais escura”, relata.

Nesse cenário, a exclusão digital deixa de significar apenas não saber usar uma rede social ou um aplicativo. Pode representar dificuldade para acessar serviços e realizar atividades que antes poderiam ser resolvidas presencialmente.

Idoso e a solidão
Foto: Reprodução Adobe Stock

Há, ainda, outro obstáculo. O celular pode ser a principal porta de entrada para o mundo digital, mas, sem acesso adequado à internet e conhecimento sobre as possibilidades que existem para além das plataformas mais conhecidas, a experiência tende a ficar restrita.

Para Paixão, isso também interfere na capacidade de verificar as informações recebidas. Se o usuário conhece apenas determinadas redes sociais, pode acabar tentando confirmar, dentro da própria plataforma, a veracidade de algo que recebeu nela.

“Colocar o celular na mão do idoso sem dar a ele a possibilidade de analisar criticamente as coisas pode envolvê-lo em uma espiral que acaba isolando-o das pessoas que poderiam ser mais importantes para ele”, alerta.

Conectado e, ainda assim, sozinho

A relação entre tecnologia e solidão também não é simples. Celulares e redes sociais permitem conversar com filhos e netos, reencontrar amigos, participar de grupos e manter contato mesmo à distância. Para uma pessoa que vive sozinha, essas possibilidades podem representar uma importante forma de interação.

Mas Paixão alerta que quantidade de conexões não significa, necessariamente, qualidade das relações.

Para entender esse fenômeno, ele chama a atenção para uma questão anterior à própria tecnologia: o espaço reservado às pessoas mais velhas na sociedade. Em uma cultura que, segundo ele, pouco valoriza o envelhecimento, alguns idosos podem encontrar na internet o acolhimento e o sentimento de pertencimento que não encontram nas relações presenciais.

“As pessoas estão cada vez mais excluídas por causa da idade e desconsideradas dentro da nossa cultura ocidental, que é individualista e não valoriza o idoso. Os grupos que deveriam estabelecer essa ponte com o mundo, como a família, muitas vezes não o fazem. Então, esse idoso vai buscar apoio em grupos virtuais”, analisa.

O problema surge quando esses espaços virtuais passam a substituir outros vínculos e reforçam uma visão cada vez mais fechada de mundo. De acordo com Paixão, os mecanismos das próprias plataformas podem contribuir para isso ao recomendar conteúdos semelhantes àqueles que mais despertam a atenção do usuário.

“Então, você tem todo um mecanismo que faz com que fique cada vez mais inserido nesse tipo de conteúdo. Assim, vai excluindo grupos com os quais não se identifica e entrando em outros que vão te direcionando cada vez mais para determinado tipo de visão”, diz.

Assim, uma ferramenta capaz de aproximar também pode contribuir para um movimento contrário: o afastamento de familiares e de outros grupos sociais. Além disso, pode reforçar uma visão mais fechada e, em alguns casos, radicalizada e ressentida do mundo.

“Em vez de se aproximar da sociedade, você vai abraçar um polo, e isso acaba criando um afastamento maior dos seus familiares”, pontua.

A convivência que não cabe na tela

Há ainda algo que a digitalização não consegue reproduzir integralmente: a convivência proporcionada por atividades cotidianas presenciais.

Paixão usa uma cena aparentemente banal para explicar essa mudança. No passado, lembra, era comum encontrar idosos esperando a abertura das agências bancárias. Resolver uma pendência financeira também significava conversar na fila, encontrar outras pessoas e participar da vida da cidade.

À medida que essas tarefas migram para aplicativos, parte dessas interações também desaparece.

O professor observa que até comportamentos muitas vezes incompreendidos, como idosos utilizando o transporte público nos horários de maior movimento, podem estar relacionados à necessidade de convívio. “Eles fazem isso justamente para ver gente, para ter contato, para participar da vida”, afirma.

Idoso na multidão
Foto: Reprodução Adobe Stock

A substituição das atividades presenciais por serviços digitais, portanto, pode trazer praticidade e autonomia, mas também exige atenção para que não elimine espaços de socialização importantes para quem já enfrenta situações de solidão.

Paixão pondera que a migração de parte do cotidiano para o ambiente digital promove, sim, um tipo de contato, mas que ele não necessariamente substitui a qualidade das relações presenciais.

“Você tem o contato das redes sociais. Pode mandar mensagem e ver aquele feed infinito. Mas isso também gera o que chamamos de brain rot, que é o ‘apodrecimento do cérebro’. A pessoa passa duas horas na rede social e não é capaz de lembrar o último post em que clicou antes de desligar o aparelho. Porque, na verdade, ela está ali sendo estimulada por vídeos curtos, e isso vai gerando um empobrecimento emocional”, pontua.

“A pessoa fica apegada a esses picos de emoção. Ela vê algo engraçado e tem um pico de emoção para, logo depois, esquecer. Aí vê algo que causa revolta, compartilha, reage, briga nos comentários. Então, é um contato com alguém, mas baseado na raiva, na repulsa ou na militância em torno de uma causa. E a gente confunde intensidade com qualidade, às vezes. É uma emoção apontada para um lugar fora dela, que não está, de fato, nas relações pessoais. E, quando falamos em emoção, estamos falando de uma parte fundamental da nossa experiência”, completa.

Inclusão precisa vir acompanhada de educação

A saída não está em afastar as pessoas idosas da tecnologia. Pelo contrário. Para Paixão, o caminho passa por uma inclusão digital mais ampla, que não se limite a ensinar onde clicar.

Isso significa desenvolver repertório para compreender como as plataformas funcionam, identificar conteúdos duvidosos, buscar outras fontes de informação e entender que aquilo que aparece nas redes sociais não representa necessariamente a realidade.

Essa formação crítica se torna ainda mais importante diante de ferramentas capazes de produzir conteúdos cada vez mais convincentes. O próprio professor admite que, mesmo trabalhando diretamente com o tema, às vezes precisa parar para avaliar se determinado vídeo que recebe é verdadeiro ou manipulado.

A dificuldade tende a aumentar com o avanço da inteligência artificial e das deepfakes, capazes de reproduzir imagens e vozes com crescente realismo.

Nesse contexto, aprender a utilizar um aplicativo é apenas uma parte do processo. Inclusão digital também significa ter condições de questionar aquilo que chega pela tela. Mais do que ensinar pessoas idosas a se adaptar ao mundo digital, o desafio é também construir um mundo digital preparado para incluí-las.

Ao longo desta série, histórias de idosos que aprenderam a utilizar celulares, reconhecer golpes, produzir conteúdo e transformar as redes sociais em fonte de renda mostram as possibilidades abertas pela tecnologia. Mas o avanço da digitalização também evidencia que colocar um dispositivo nas mãos de alguém não basta.

Para que estar conectado represente, de fato, inclusão, é preciso garantir acesso, ferramentas adequadas, conhecimento e capacidade crítica. Assim, a tecnologia pode cumprir a promessa de aproximar pessoas e ampliar a autonomia sem criar, no caminho, uma nova barreira para quem envelhece.

Sobre o autor

Juliana Baeta

Subeditora do portal Diário do Comércio desde 2024. Jornalista (Newton Paiva) e especialista em Comunicação Pública e Governamental (PUC Minas). Agraciada nos prêmios Mol de Jornalismo para a Solidariedade e CDL/BH de Jornalismo.

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