El Niño pressiona o agro e amplia demanda por tecnologias de proteção térmica
A permanência do El Niño e a possibilidade de temperaturas acima da média nos próximos meses aumentam a pressão sobre o agronegócio, especialmente em atividades que dependem do controle térmico dos ambientes para garantir a produtividade. Nesse cenário, tecnologias voltadas ao isolamento de estruturas ganham espaço entre produtores que buscam reduzir os efeitos do calor sobre as instalações e os animais.
Dados do Painel El Niño do governo federal, divulgado em julho, apontam probabilidade de 100% de permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027. As previsões indicam que as anomalias da temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial podem superar 2°C entre a primavera e o verão deste ano.
Isolamento térmico protege produção agropecuária contra extremos de temperatura
Em Minas Gerais, o Grupo 3TC, com sede em Belo Horizonte e fábrica em Contagem, na Região Metropolitana (RMBH), desenvolveu uma tecnologia de isolamento térmico para reduzir a influência da temperatura externa sobre estruturas aviárias, unidades de beneficiamento de sementes e instalações destinadas à suinocultura.
Criada há mais de dez anos a partir da experiência do engenheiro de produção e CEO do Grupo 3TC, Ricardo Valentini, nos Estados Unidos, a manta térmica 3TC pode ser empregada tanto para conservar o calor interno quanto para reduzir a entrada de calor externo.
Valentini conta que, até chegar ao modelo atual do produto, teve contato com diferentes tecnologias utilizadas na construção civil durante o período em que viveu no país norte-americano, entre 2008 e 2012, inclusive em regiões submetidas a condições climáticas extremas.

A avicultura é um dos exemplos de aplicação da tecnologia. Segundo Valentini, a solução pode ser utilizada em diferentes momentos do ciclo produtivo das aves, conforme mudam as necessidades de temperatura do ambiente.
“No início, quando elas precisam de um ambiente aquecido, para se alimentarem, a solução ajuda a conservar a temperatura interna. Na fase final, momento em que os animais devem ganhar peso, é necessário resfriar o ambiente; nesse sentido, o sistema busca impedir que o calor externo, inclusive aquele transferido pelas telhas, aumente a temperatura dentro do aviário”, explica.
Tecnologia se adapta a diferentes estruturas
Conforme o empresário, a tecnologia se adapta a diferentes formatos de construção. A manta pode acompanhar, por exemplo, a curvatura de telhados de galpões e ser utilizada tanto em construções novas quanto em reformas.
A linha de produtos da empresa inclui ainda uma placa térmica, de maior espessura, e um forro modular e lavável. Segundo Valentini, todos têm como objetivo melhorar o isolamento térmico das estruturas.

“Temos milhões de metros quadrados aplicados em todo território nacional com uma carteira de mais de 4,5 mil clientes atendidos e mais de 5,5 mil projetos executados”, destaca o CEO. A capacidade produtiva é de 8 mil metros quadrados por turno. Já o preço dos materiais varia de R$ 25 a R$ 60 por metro quadrado.
Solução combina isolamento térmico e menor impacto ambiental
Além do controle da temperatura, Ricardo Valentini destaca características relacionadas à sustentabilidade e à adaptação das estruturas. Segundo ele, os materiais são recicláveis, atóxicos, não propagam chamas e podem ser lavados e higienizados.
A tecnologia também utiliza materiais com espessura menor que a de algumas soluções convencionais de isolamento, o que, de acordo com o CEO, reduz o volume utilizado, a geração de resíduos e o peso sobre as estruturas.
A linha 3TC é comercializada pelo site oficial da companhia e por dois distribuidores autorizados, um em São Paulo e outro na região Sul do País.
Produtor relata economia de energia e menor mortalidade
Os benefícios da tecnologia apontados por Valentini também são relatados por clientes que já recorreram à proteção térmica. Responsável pela Granja Santo Amaro, em Cordisburgo, na região Central de Minas Gerais, o produtor rural Pedro Fernandino mantém uma criação de 420 mil frangos, distribuídos em dez aviários.
Ele comprou a manta pela primeira vez em 2021, para três galpões. Desde então, ampliou gradualmente o uso da tecnologia. Atualmente, sete estruturas contam com o sistema, o equivalente a 23,26 mil metros quadrados de área coberta. A intenção é instalar a solução nos três aviários restantes e nos novos galpões planejados pela propriedade.
“Hoje estamos vivendo um momento de avicultura de precisão. Então é preciso fazer o aquecimento das aves nos primeiros dias de vida. A manta térmica ajuda a manter a amplitude térmica. Ao mesmo tempo, economizamos no combustível gerador de calor”, conta.
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Segundo o produtor, a instalação da proteção térmica contribuiu para uma redução estimada de 8% no custo de energia elétrica a cada ciclo produtivo das aves, de 60 dias. Ele também calcula uma economia de aproximadamente 5% nas despesas com a manutenção dos motores.

“O controle térmico também traz benefícios que não são possíveis de mensurar como menor mortalidade dos animais e melhor conversão alimentar. Isso porque vamos entregar para o frango um ambiente mais controlado”, completa.
Calor também afeta estruturas de armazenamento
Os efeitos das temperaturas elevadas, porém, não se restringem ao conforto térmico dos animais. A bióloga, consultora e mestre em sustentabilidade, Fernanda Raggi, explica que as mudanças climáticas também impõem riscos à infraestrutura utilizada pelo agronegócio.
Segundo ela, materiais como aço, alumínio, plástico, borracha, PVC e componentes de cobertura podem sofrer expansão térmica e envelhecimento acelerado quando submetidos a temperaturas muito elevadas.
O problema também pode atingir as estruturas de armazenagem. Em silos, por exemplo, o aumento da temperatura pode acelerar a deterioração dos grãos, principalmente quando há condições inadequadas de umidade.
“Isso significa que uma onda de calor pode transformar um problema climático em perda pós-colheita. Isso é de extrema relevância porque a infraestrutura de armazenagem precisa funcionar como uma barreira contra as condições externas”, diz.
Adaptação exige planejamento da infraestrutura rural
Para a doutora em engenharia ambiental e professora do Centro Universitário UniBH, Elizabeth Rodrigues, a adaptação da infraestrutura rural deve fazer parte do planejamento do agronegócio diante da maior frequência e intensidade dos eventos extremos.
Ela recomenda o uso de materiais com maior resistência térmica e à radiação ultravioleta, além de isolamento adequado, coberturas de alta refletância solar, sombreamento e sistemas de ventilação natural capazes de reduzir a entrada de calor nos ambientes.
Outra estratégia apontada pela especialista é a digitalização da infraestrutura. Sensores de temperatura, umidade e consumo de água permitem, segundo ela, identificar situações de estresse térmico e automatizar sistemas de irrigação, ventilação e resfriamento.
Por fim, a especialista defende que a adaptação do agronegócio às ondas de calor deve combinar engenharia, eficiência hídrica e energética, infraestrutura verde e planejamento climático.
“O objetivo não é simplesmente resfriar as estruturas, mas reduzir a exposição ao calor, diminuir a vulnerabilidade e aumentar a resiliência do sistema produtivo de forma ambiental e economicamente sustentável”, conclui.
Grupo 3TC prevê receita de R$ 25 milhões em 2026
O aumento da preocupação com a adaptação climática também ocorre em meio à expansão dos negócios do Grupo 3TC. Com 13 anos de atuação, a empresa realiza estudos sobre a aplicação da tecnologia no agronegócio em parceria com universidades, entre elas a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no Triângulo Mineiro.
A companhia projeta faturamento de R$ 25 milhões em 2026, ante R$ 15,03 milhões registrados em 2025. Se confirmado, o resultado representará crescimento de 66,3% em um ano. Atualmente, a empresa informa gerar 50 empregos diretos e indiretos.
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