Alta do café impulsiona mercado, mas quebra na safra ainda preocupa produtores de Minas Gerais

Preços do arábica e robusta disparam em agosto, mas colheita reduzida e clima adverso limitam ganhos dos cafeicultores mineiros
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Alta do café impulsiona mercado, mas quebra na safra ainda preocupa produtores de Minas Gerais
Foto: Reuters Nacho Doce

O preço do café disparou em agosto de 2025, impulsionado por estoques reduzidos, queda na produção e aumento do consumo global. Segundo dados do Cepea/Esalq, o café arábica acumulou alta de 26,92% no mês, atingindo R$ 2.299,66 por saca. Já o café robusta, valorizou impressionantes 50,61% no mesmo período, cotado a R$ 1.548,95.

Em Minas Gerais, principal estado produtor de arábica do País, o cenário é de valorização dos preços, mas também de colheita frustrada. “A menor oferta, principalmente da safra brasileira, estoque enxuto, aumento do consumo e incertezas globais são os principais fatores de movimentação de alta nos preços do café recentemente”, explica a analista de Agronegócios do Sistema Faemg Senar, Ana Carolina Gomes.

Clima e oferta global também pesam

Além da quebra na produção, o clima tem sido um dos principais vilões da safra atual. O veranico de fevereiro, com altas temperaturas e falta de chuvas durante a granação prejudicou o desenvolvimento do café.

“Em 2025, mais uma vez, tivemos perda na oferta, principalmente atrelado ao rendimento da safra, ou seja, a uma maior necessidade de grãos de café para se fazer uma saca”, pontua Ana Carolina Gomes.

Segundo o pesquisador do Cepea/Esalq/USP, Renato Garcia Ribeiro, “o término da colheita do arábica evidenciou perdas no beneficiamento e o limitado volume de produção no Brasil”. Ele também destaca que as tarifas extras dos Estados Unidos sobre o café brasileiro seguem influenciando o mercado com incertezas e volatilidade.

“Desde julho, a expectativa de que o grão possa ser retirado da taxação extra tem levado compradores e vendedores ligados ao mercado norte-americano a adotar uma postura mais cautelosa”, ressalta.

Café
Foto: Khaled Abdullah/Reuters

Produção de Minas sente os efeitos

O impacto da quebra da produção é sentido no campo. Em Três Pontas, no Sul de Minas, o produtor Allan Botrel, da Fazenda Monjolo, relata perdas de até 20% no rendimento. “A florada gerou uma boa expectativa, mas o clima não ajudou. Esse ano, o rendimento não foi muito bom”, afirma.

Mesmo com preços altos, o produtor ressalta que a lucratividade não é garantida para todos. “A cafeicultura é uma atividade de longo prazo. A estrutura de custo de cada um é diferente, mas é possível manter ainda um nível de lucratividade. Os preços subiram bastante, os custos ainda não acompanharam”, explica.

O comportamento cauteloso tem sido observado em diversas regiões cafeeiras. De acordo com o diretor-executivo da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, Juliano Tarabal, há relatos de quebra entre 20% e 30% da produção.

“O recebimento nos armazéns, nas cooperativas ainda está bastante lento, ou seja, não tem volume como já deveria estar acontecendo a essa altura, mês de agosto, e o produtor de certa forma está fazendo uma gestão comercial aguardando melhores preços”, ressalta Tarabal.

“Para o produtor não é favorável, ao mesmo tempo que você tem um aumento do preço, por outro lado, tem uma quebra, uma diminuição da produção que também não é interessante para o outro setor”, conclui o diretor.

Expectativas e comercialização da safra

Para o curto prazo, o mercado deve seguir sustentado. “A tendência é de manutenção dos preços no curto prazo, uma vez que a safra brasileira encontra-se no final. Para haver quedas significativas no preço, seria necessária inserção de café no mercado. As safras vietnamita e colombiana, em breve, entrarão no mercado, mas, ainda não sabemos qual será o impacto”, avalia Ana Carolina Gomes.

Enquanto isso, produtores como Allan Botrel adotam uma estratégia de venda por etapas. Ele explica que a valorização recente tem incentivado muitos produtores a vender parte dos estoques, mas com cautela.

“Com esses preços mais altos, mesmo nos momentos de preços mais baixos, é possível manter ainda um nível de lucratividade. Eu tenho aumentado as minhas vendas, mas sempre penso numa média, numa estratégia de gestão de risco. Não é o caso de vender tudo de uma vez”, pondera Botrel.

Sobre o autor

Ana Paula Moreira

Subeditora do portal Diário do Comércio desde 2025. Especialista em jornalismo esportivo pelo Centro Universitário UNA. Vencedora do Prêmio Petrobrás de Jornalismo.


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