Crédito mais caro e dívidas freiam financiamento do agro em Minas
Em um cenário de elevado endividamento dos produtores rurais e de dificuldades de acesso aos financiamentos, os desembolsos do Plano Safra 2026/2027 para Minas Gerais estão em queda. De acordo com os dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), nos primeiros três meses da safra, o valor liberado chegou a R$ 11,9 bilhões, queda de 26,8% frente ao mesmo período do ano passado. Em nível nacional, o resultado também retraiu, com os desembolsos recuando 30,5% e somando R$ 79 bilhões. Com a retração mais expressiva no Brasil, a participação de Minas Gerais no valor total desembolsado do crédito rural subiu de 14,3% para 15%.
Conforme a analista de agronegócio do Sistema Faemg Senar, Nathália Rabelo, a redução das contratações de crédito rural precisa ser analisada em um contexto de elevado endividamento dos produtores e de dificuldades de acesso aos financiamentos.
“A combinação de juros elevados, custos de produção, oscilações de preços e perdas decorrentes de eventos climáticos tem pressionado a rentabilidade das atividades agropecuárias e comprometido a capacidade de pagamento de parte dos produtores”, explicou.
O cenário gera um efeito preocupante para a agropecuária de Minas Gerais. Segundo a analista, os produtores que já possuem dívidas podem encontrar dificuldades para assumir novos compromissos financeiros, enquanto aqueles que precisam de recursos para financiar a produção podem enfrentar restrições na contratação, seja pelas condições oferecidas, seja pelas exigências de garantias e pela análise de risco das instituições financeiras.
“Os impactos podem ser significativos. A dificuldade de acesso ao crédito de custeio pode comprometer a aquisição de insumos e outras despesas essenciais à produção. Já a restrição ao crédito de investimento pode levar ao adiamento da modernização das propriedades, da adoção de tecnologias e de melhorias que contribuam para a produtividade e a competitividade”, analisou.
No Estado, os desembolsos da linha de custeio somaram R$ 6,8 bilhões, representando, assim, uma queda de 33,8%. O maior volume, R$ 4,2 bilhões, foi destinado ao custeio da safra agrícola, valor que caiu 33,8%. Na pecuária, os desembolsos para custeio, R$ 2,6 bilhões, retraíram 33,9%.
Dentre os produtos agrícolas, em setembro, o café seguiu como a principal cultura amparada, somando R$ 997,06 milhões (63% do custeio agrícola do mês), ante R$ 1,5 bilhão em setembro de 2025. Para a soja, o valor chegou a R$ 210 milhões, menor que os R$ 403 milhões registrados anteriormente.
Na linha de investimentos, os desembolsos do crédito rural em Minas Gerais ficaram 34,5% inferiores, com a liberação de R$ 2 bilhões. A maior queda na demanda ocorreu na agricultura, 37,4%, e um valor liberado de R$ 1,3 bilhão. Para investir na pecuária, os produtores contrataram R$ 700 milhões, 28,5% a menos.
“Em Minas Gerais, a redução de 33,8% no valor contratado para custeio e de 34,5% para investimento acende um alerta sobre as condições de financiamento da atividade agropecuária. É importante acompanhar se essa retração está associada à menor demanda, às dificuldades de acesso ou à combinação desses fatores”, acrescentou Nathália Ribeiro.
Já na linha de comercialização, a demanda cresceu. No primeiro trimestre da safra 2025/26, os desembolsos do crédito rural, R$ 2,8 bilhões, ficaram 42,9% maiores no Estado. A demanda para comercialização agrícola cresceu 28,1%, atingindo R$ 2,4 bilhão, enquanto a pecuária teve alta de 290,7%, com a liberação de R$ 400 milhões.
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