Varejo de Minas espera Dia das Crianças positivo, mas com consumidor mais atento a preços
O comércio mineiro chega ao Dia das Crianças com expectativa positiva para as vendas, mas sem previsão de avanço expressivo em relação ao desempenho do ano passado. Empresários do setor de brinquedos ouvidos pelo Diário do Comércio apontam que o consumidor continua comprando, porém está mais atento aos preços e, em alguns casos, reduzindo o valor destinado aos presentes.
A avaliação ocorre em um cenário de juros elevados e menor poder de compra das famílias. Segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o Dia das Crianças deve movimentar R$ 9,27 bilhões no varejo brasileiro neste ano, alta de 1,8% sobre os R$ 9,11 bilhões registrados em 2025. A data é considerada a quarta mais relevante do calendário sazonal do comércio nacional, perdendo para o Natal, o Dia das Mães e a Black Friday.
Em Minas Gerais, contudo, a percepção dos empresários é de manutenção do ritmo, com espaço para resultados positivos dependendo do perfil da compra. A avaliação é próxima à perspectiva da Associação de Lojistas de Brinquedos do Brasil (ALBB), que estima crescimento de aproximadamente 5% para o setor neste ano.
Segundo o diretor executivo da entidade, Marcelo Mouawad, a projeção considera um avanço moderado, influenciado também pela inflação. “Devemos ter um crescimento sim, tem um pouco de inflação, mas não tem nenhuma queda brusca. Então, a gente sempre trabalha para fazer alguma coisa melhor”, afirma.

Na loja “Cadê meu brinquedo?”, a proprietária Myura Ferreira Maia trabalha com uma expectativa semelhante ou ligeiramente inferior à do ano passado. Segundo ela, o comportamento observado ao longo de 2026 mostra um consumidor mais pressionado pelas despesas. “A gente percebeu que o consumidor perdeu o poder de compra. Uma inflação muito alta, juros muito altos e contas muito altas para esse consumidor pagar”, diz.
A mudança também aparece no valor dos presentes. De acordo com Myura Maia, clientes que anteriormente compravam brinquedos na faixa de R$ 80 passaram a procurar opções entre R$ 50 e R$ 60. “Acredito que serão valores mais baixos. Ao longo do ano observamos que aquele cliente que comprava um brinquedo mais caro, reduziu o valor da faixa”, conta.
Mesmo diante desse cenário, a loja manteve o planejamento de estoque do ano passado. A estratégia considera que os brinquedos não vendidos podem ser comercializados também no período de Natal.
Na Dream Store, a avaliação para o Dia das Crianças é mais otimista. O gerente de operações, Márcio Pereira, afirma que a empresa espera um bom resultado e trabalha para ampliar as vendas por meio da experiência oferecida nas lojas. “A nossa ideia é fazer um ótimo resultado aqui, é ter crescimento”, diz.
A rede possui 14 unidades no Brasil e uma em Minas Gerais, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Para Pereira, o varejo físico precisa oferecer algo além do produto para se diferenciar das compras pela internet. “Eu acho que quem está no mercado físico e que não trouxer essa experiência vai competir com o digital, e vai acabar perdendo”, afirma.
Em Belo Horizonte, a estratégia inclui produtos exclusivos, demonstrações e atividades para as famílias. A loja também inaugurou recentemente o Dream Coffee, espaço gastronômico integrado à loja. Para o Dia das Crianças, estão previstas atividades como o Chá das Princesas e encontros temáticos.
Já o empresário Ricardo Machado, proprietário da Vila Encantada, no Shopping Navegantes, no Alphaville, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a perspectiva também é positiva. A loja especializada em brinquedos e presentes foi inaugurada no início de outubro justamente para aproveitar o movimento da data.
Por ser uma operação nova, Machado afirma que ainda não consegue estabelecer uma projeção de percentual de crescimento. Os primeiros dias, porém, já apresentaram desempenho acima do esperado.
Diante da procura, o empresário chegou a acelerar a reposição do estoque para evitar falta de produtos próximo à data. Machado ressalta que, no caso dele, a localização favorece as compras de conveniência, principalmente para consumidores que precisam adquirir rapidamente um presente para aniversários e outros compromissos infantis. “Os pais não saem dali, acabam resolvendo tudo por ali mesmo”, finaliza.
Taxa das blusinhas incomoda lojistas
Para a ALBB, além do comportamento do consumidor, a concorrência com as plataformas de comércio eletrônico, especialmente as compras internacionais de baixo valor, permanece como um dos principais pontos de atenção para o setor.
Mouawad destaca o impacto da chamada “taxa das blusinhas” (apelido popular dado ao imposto federal sobre compras internacionais de até US$ 50 em sites estrangeiros, como Shopee, Shein e AliExpress), ao afirmar que a redução da tributação sobre determinadas compras internacionais amplia a diferença de custos em relação às empresas instaladas no Brasil. Para ele, a situação gera concorrência desleal.
Segundo o executivo da ALBB, as empresas brasileiras arcam com tributos como Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), além dos encargos relacionados à folha de pagamento. O impacto é maior, na avaliação da entidade, para produtos de menor valor agregado, justamente aqueles que têm maior sensibilidade à diferença de preço.
O diretor da associação também chama atenção para a declaração de valores nas compras internacionais. “Às vezes eles declaram um valor menor para poder ficar abaixo dos US$ 50. Então, isso é preocupante”, observa.
Foi em setembro deste ano que a Presidência da República sancionou a lei que acabou com a taxa das blusinhas. Publicada na edição extra do Diário Oficial da União (DOU), no dia 10 daquele mês. A Lei 15.502 autorizava a redução a zero no Imposto de Importação em compras internacionais de até US$ 50. No entanto, elas continuam sujeitas ao ICMS, com alíquotas definidas pelos estados e pelo Distrito Federal.
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