Governo avalia participação do BNDES em projeto de terras-raras no Sul de Minas
O governo federal, por meio do Ministério de Minas e Energia (MME), acompanha a evolução do projeto Caldeira, na região de Poços de Caldas e Caldas, no Sul de Minas Gerais, principalmente no que diz respeito ao papel a ser desempenhado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), seja como financiador ou sócio no projeto. “Este projeto poderá se tornar uma das maiores unidades industriais de processamento de terras-raras fora da China. Diante da relevância estratégica desse empreendimento para o País, temos acompanhado de forma próxima sua evolução, em articulação com os demais ministérios e com o BNDES”, afirmou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
Considerado um dos maiores e mais avançados projetos de terras-raras em argila iônica, o Caldeira conta com a gigante australiana Lynas, maior produtora de terras-raras fora da China, que anunciou um acordo definitivo para adquirir 100% da Meteoric por aproximadamente R$ 3,5 bilhões através de troca de ações. A conclusão do negócio está prevista para março de 2027, dependendo de aprovações regulatórias.
Por meio de nota, a Meteoric informou que mantém, desde o início do Projeto Caldeira, diálogo institucional com as diferentes partes interessadas, pautado pela transparência e pelo compromisso com o desenvolvimento do projeto. “Após o anúncio, em 30 de setembro, da intenção de aquisição da Meteoric pela Lynas, a Lynas informou que pretende avaliar diferentes alternativas de financiamento para apoiar o futuro desenvolvimento do Projeto Caldeira, incluindo financiamento estratégico, financiamento de projetos e recursos próprios”, acrescenta a nota.
Na avaliação de Silveira, a implantação de uma unidade destinada à separação de óxidos de terras raras no Sul de Minas, apresentado pela empresa, poderá representar um passo importante para o Brasil avançar nas diversas etapas das cadeias produtivas. “O objetivo é ampliar o valor agregado dos nossos recursos minerais, reduzir a exportação de matéria-prima sem beneficiamento e, consequentemente, desenvolver a nossa indústria”, disse o ministro.
O geólogo responsável pela descoberta das terras-raras em argila iônica em Poços de Caldas, Álvaro Fochi, explica que a parceria da Meteoric com a Lynas é muito importante porque a Lynas é a maior empresa de terras-raras fora da China e domina tecnologia de refino e de metalização. “Nós sabemos que a Lynas tem a intenção de trazer uma planta de refino para o Brasil. Num primeiro momento, a empresa vai precisar exportar esse carbonato para a Malásia para fazer o refino, mas a perspectiva é que esse refino seja feito no Brasil”, afirma o geólogo.
Segundo Fochi, para isso dar certo, o governo não pode errar na dose e querer que esse processo aconteça num prazo muito curto, caso contrário o governo pode acabar inibindo a vinda dessas empresas para o Brasil. “O governo federal precisa trazer e desenvolver tecnologia para dominar o elo do refino porque ele agrega muito mais valor e aumenta muito o faturamento do País. E ao dominar esse elo de refino, abre-se a possibilidade para trazer o restante da cadeia produtiva para o Brasil. Com essa estratégia, a gente evita repetir os mesmos erros cometidos com a exploração do minério de ferro”, defende o geólogo.
Processamento regional
O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Poços de Caldas, Franco Martins, disse que a administração tem trabalhado para que a riqueza mineral se transforme também em desenvolvimento industrial e tecnológico. Na sua avaliação, a aquisição da Meteoric pela Lynas fortalece essa perspectiva, porque aproxima o Projeto Caldeira de uma empresa que já domina e utiliza, em suas operações na Malásia, a tecnologia de separação de terras raras. “Isso abre a possibilidade de trazer essa tecnologia para o Brasil e realizar aqui a separação dos óxidos, uma etapa estratégica para agregar valor à produção. Nossa expectativa é trabalhar para que a região de Poços de Caldas possa receber esses investimentos e avançar, progressivamente, para outras etapas, como a produção de metais, ligas e ímãs”, afirma.
Para Martins, a expectativa é que o crescimento da atividade econômica amplie a base de arrecadação municipal. “Quanto mais etapas da cadeia produtiva forem realizadas aqui, maior será o potencial de geração de renda e de benefícios para o município”, pontua. Em relação às contrapartidas, Franco explica que a prioridade da prefeitura é construir compromissos que tragam resultados duradouros: formação e aproveitamento da mão de obra local, desenvolvimento de fornecedores, cooperação com instituições de pesquisa e planejamento da infraestrutura necessária, com responsabilidade ambiental e diálogo com as comunidades. “O que buscamos é transformar esse investimento em desenvolvimento para o território, com benefícios que permaneçam na região ao longo do tempo”, completa.
Em relação a expectativa de aumento na arrecadação, o secretário disse que ainda precisa de informações consolidadas sobre o desenho final do projeto para calcular estimativas específicas para Poços de Caldas. Segundo Franco, como se trata de um empreendimento regional, é necessário distinguir os empregos e as receitas vinculados à localização da operação daqueles decorrentes dos serviços e das indústrias que poderão se instalar em nossa cidade. No entanto, ele acredita que o município e a região vão se beneficiar com a ampliação de oportunidades de emprego e renda, o fortalecimento dos fornecedores locais e a atração de novos investimentos industriais. A geração de empregos deverá envolver tanto a implantação quanto a operação do empreendimento, além das atividades que poderão se desenvolver ao redor dele.
O secretário avalia que a aquisição da Meteoric pela Lynas representa a aproximação entre um recurso mineral relevante e uma empresa que já atua na cadeia internacional de terras raras, com experiência em processamento e separação. “Essa combinação pode fortalecer as condições de financiamento, desenvolvimento tecnológico e acesso a clientes, contribuindo para a implantação do projeto e abrindo oportunidades para novas etapas industriais no Brasil”, comemora.
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